A possibilidade real de uma viagem de peso a Mendoza e San Juan

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Na famosa série �??Stranger Things�??, o mundo invertido funciona fisicamente igual à realidade, mas com o espaço e o tempo distorcidos. Talvez dê para dizer que Mendoza e San Juan, na Argentina, sejam algo parecido com isso em relação a Salvador: o espaço, ao invés da vista para o mar, tem montanhas que arranham o céu, e o tempo é quase sempre frio, muitas vezes com temperaturas abaixo de zero. Mas a realidade é que, fora isso, se trocar a cerveja pelo vinho e a roupa curta pelo agasalho reforçado, dá para se divertir tanto quanto assistindo à série da Netflix.

E nem precisa chorar no pé do caboclo, porque tomar umas talagadas de vinho de primeiríssima qualidade, aos pés da imponente Cordilheira dos Andes, está cada vez mais acessível, diante da galopante desvalorização do peso argentino (leia mais abaixo)

Talvez o grande peso no bolso seja a passagem aérea (puxada pelo preço do combustível de aviação por aqui):  cerca de R$ 3,3 mil pela Gol, para Mendoza, com escala em Guarulhos. Porém, ao desembarcar em território argentino, o cenário fica um pouco mais leve como um Pinot Noir.

A convite do governo argentino, através do Instituto Nacional de Promoção Turística (Inprotur) e do Visit Argentina, embarcamos numa viagem a Mendoza e San Juan, espécies de Mecas do vinho no país, e te mostramos lugares que não podem ficar de fora de seu itinerário quando estiver nas cidades do oeste argentino, coladas nas altíssimas montanhas. No caminho, muitas vinícolas, claro, além de pousadas e hotéis fantásticos, vistas deslumbrantes, ótimas opções gastronômicas e muita história pra contar.

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Vinhedos de Barreal, em San Juan: produção de vinho a 1,5 mil metros de altitude (Foto: João Gabriel Galdea/CORREIO)

Vinícolas
Uma taça de vinho antes do almoço é muito bom pra ficar pensando melhor. E foi pensando nessa máxima do tal multiverso que aportamos  na Bodega Superuco (@superuco), no Valle de Uco, em Mendoza, para conhecer a fazenda familiar onde se produzem vinhos com práticas orgânicas. O nosso anfitrião foi Leo Bonetto Michelini, um dos fundadores do local, que abriu o espaço em 2011. 

�??A nível de América do Sul, o Valle de Uco hoje é um dos grandes lugares para conhecer, e a maioria dos brasileiros que vêm para cá é formada por casais�?�, comenta ele ao mostrar a bela paisagem que cerca a fazenda, local perfeito para pedir alguém em casamento.

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Sede da bodega Superuco, em Mendoza (Foto: João Gabriel Galdea/CORREIO)

Por lá unem-se dois hectares de plantação para parir uma produção biodinâmica de vinhos que ainda não brotaram no Brasil, como o Calcáreo, um malbec fermentado em ovos de concreto. A visita guiada pela bodega, seguida da degustação de cinco vinhos, custa 4 mil pesos argentinos (cerca de R$ 170 na cotação atual).

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Degustação de vinhos na premiada bodega Superuco (Foto: João Gabriel Galdea/CORREIO)

Se o visual da Superuco encanta pelos aspectos mais bucólicos e românticos, no caso da Bodega Zuccardi Valle de Uco (@zuccardivalledeuco) a coisa muda um pouco de figura. O aspecto futurista, austero, que parece cenário da série �??Black Mirror�??, é o charme do lugar. A fazenda Piedra Infinita, inaugurada em 2016, impressiona pela suntuosidade e requinte, e não à toa foi eleita pelo segundo ano seguido a melhor vinícola e vinhedo do mundo pelo The World�??s Best Vineyard. 

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Refeição harmonizada com vinhos no restaurante da família Zuccardi, na Finca Piedra Infinita, em Mendoza (Foto: João Gabriel Galdea/CORREIO)

Quem nos recepcionou por lá foi uma das mulheres fortes do clã, Julia Zuccardi, parte da terceira geração da família que é uma referência da vitivinicultura argentina. Ela nos contou que a construção do complexo, que inclui um grande restaurante com vista para as parreiras e a cordilheira, foi feita com elementos naturais que remetem à natureza local, como pedras redondas e calcárias. 

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Julia Zuccardi ao lado da pedra fundamental da Bodega Zuccardi Valle de Uco (Foto: João Gabriel Galdea/CORREIO)

Um almoço em quatro passos harmonizado com quatro excelentes vinhos, como o Zuccardi Concreto Malbec, é a boa pedida. As reservas podem ser feitas pelo site zuccardiwines.com.

Já na cidade histórica de Barreal, na província de San Juan, duas bodegas também se destacam, incluindo uma também comandada por um Zuccardi. Trata-se da Cara Sur (@carasur.barreal), que tem à frente Sebastián Zuccardi e Pancho Bugallo. Foi Pancho quem nos recepcionou por lá para um tour na pequena fábrica, onde é possível provar os vinhos ainda em processo de produção, diretamente dos tanques e ovos de concreto.

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Linha de vinhos da Casa Sur, em Barreal, San Juan (Foto: João Gabriel Galdea/CORREIO)

A outra vinícola onde se pode entender de perto como funciona o processo de fabricação dos vinhos, neste caso a 1,5 mil metros de altitude, é a Bodega Los Dragones (@los.dragones.vinos). Um dos proprietários, Andrés Biscaisaque, nos contou que começou o projeto em 2018. �??Decidi largar tudo e me dedicar a esse sonho�?�, comenta. 

Por lá, as cascas de uva, após serem prensadas, servem como compostos para corrigir a acidez do solo em alguns pontos. O local está começando a receber os primeiros turistas, e vale a visita para provar o Malbec Los Dragones. A viagem da capital, San Juan, a Barreal dura pouco mais de 4h.

Aventuras
Para quem deseja combinar os passeios etílicos às vinícolas com momentos de aventura e lazer, a região de Barreal é ideal. Um dos rolés mais interessantes é no Parque Pampa del Leoncito, ou Barreal Blanco, onde se praticam carrovelismo, um esporte que só existiu por lá. 

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Carrovelismo, a corrida de carros à vela, é um esporte próprio da região (Foto: João Gabriel Galdea/CORREIO)

O local onde o carrinho a vela se movimenta – a depender da força do vento – é uma imensa área desertificada e plana que possui 13 km de extensão por 4 km de largura.

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O sol se põe atrás da Cordilheira dos Andes; a vista é do Parque Pampa del Leoncito (Foto: João Gabriel Galdea/CORREIO)

Para quem deseja trocar a proximidade com o chão pela imensidão do universo, a ideia é ir ao Complexo Astronômico El Leoncito (Casleo), em Calingasta, onde fica o Telescópio Jorge Sahade. A 2,5 mil metros de altitude, é possível conhecer melhor o céu, numa visita guiada, e conferir em outro telescópio a magia de observar os astros mais de perto. �? possível dormir por lá, fazendo a reserva no site do Casleo.

A região ainda oferece opções de windsurf e kitesurg no açude Cuesta del Viento e, claro, expedições às montanhas dos Andes. Expedicionário e criador do Cruce Sanmartiniano, Ramón Ossa realiza experiências na cordilheira. �??�? possível contratar passeios pelo site exploraparques.com. Fazemos roteiros específicos para pessoas ou para grupos�?�, apresenta ele.

Mas para quem não quer agonia, só busca tranquilidade, Barreal é também a cidade perfeita. Com pouco menos de 3 mil habitantes, o quase vilarejo fica no Vale de Calingasta e tem muita história – foi de lá que o general San Martin, o mesmo que dá nome a uma importante avenida de Salvador, partiu para libertar de vez a América do Sul do domínio espanhol.

Vale visitar, portanto, o pequeno centro histórico local e monumentos como Mirador del Cóndor Andino, de onde se tem uma bala vista da cidadezinha e das cordilheiras.

Já em Mendoza, a aventura pode ser encontrada nos rios, vales e lagos que cercam a capital mundial do Malbec. Há opções de prática de rafting, caiaque, rappel, escalada e tirolesa, além de passeios de mountain bike com paisagens impressionantes. O Parque Estadual Aconcágua, onde ficar o Aconcágua, a montanha mais alta da América do Sul, também vale uma chegadinha. 

Donde quedar
Em Barreal, a melhor opção (e provavelmente a mais cara) é a pousada Paso de Los Patos (@pasodelospatos), que possui ótimos quartos com decoração tradicional, tendo ao fundo uma vista sublime da cordilheira. O pernoite custa cerca de R$ 1,1 mil, mas há opções mais em conta na cidade.

Voltando a Mendoza, a cerca de 6h de viagem, as opções de hospedagem são muito mais diversas. Desde os clássicos, como Hotel Esplendor Mendoza (@esplendorhotelmendoza), com arquitetura mais antiga, quartos bem amplos e infraestrutura que conta até com cassino (a diária  custa R$ 1,1 mil), até pousadas a partir de R$ 110 a diária.

Ainda nas opções mais careiras, o resort Casa de Uco (@casadeuco), com excelente infraestrutura contando com Wine Bar & Lounge, salas de estar com lareira, além de um restaurante de alta cozinha, é um dos destinos preferidos de casais em lua de mel. A diária do quarto mais barato custa 585 dólares.

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Chalés futuristas do Alpásion, que além de hotel, restaurante e vinícola, oferece experiências como passeios a cavalo (Foto: João Gabriel Galdea/CORREIO)

Para uma experiência mais descolada, com opções de chalés no meio da plantação que mais parecem cápsulas do tempo, a dica é a pousada Alpasión (@alpassionwine), local aconchegante e longe de qualquer barulho diferente da própria natureza. O ambiente parece cenário da série �??Breaking Bad�??, e o preço se assemelha a �??Billions�??: o quarto standard sai por 430 dólares a diária.

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Terra do churrasco também tem opção que não inclui carne
A carne está na base da culinária argentina. Do simples churrasco do dia a dia à popular parrilhada, as proteínas saltam de todos os pratos, de preferência mal passadas. Mas a cor vermelha dos animais mortos começa a concorrer com o roxo das remolachas (beterrabas), e o verde nos mais diversos tons de plantas. 

Um dos exemplos dessa mudança de postura está numa das vinícolas que visitamos. O almoço no Riccitelli Wines (@riccitelliwines), comandado pelo chef Juan Ventureyra, é um carnaval de vegetais que foge de todos os padrões argentinos. �??Eu trabalhei em vários restaurantes e todos eram voltados para carne. Então, embora o mendozino (natural de Mendoza), e o argentino em geral consuma muita carne, sempre, uma proposta como essa é muito rara, diferente, e chamou a atenção�?�, conta Ventureyra, que está à frente do restaurante desde 2020.

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Comida vegetariana no restaurante da bodega-boutique dos Riccitelli (Foto: João Gabriel Galdea/CORREIO)

As plantas que vão para os pratos crescem de forma selvagem ao redor do galpão onde grandes grupos de amigos se divertem bebendo vinho e falando alto. A dica por lá é o almoço em seis passos, com seis vinhos da própria Riccitelli, que produz Malbec desde 1927, e que também pode ter a sua linha de produção visitada. A marca registrada é o uso de tanques e ovos de concreto e foudres de carvalho francês. A explicação nos foi dada pelo próprio Matias Riccitelli, enólogo e responsável pela vinícola-boutique onde produz hits como o vinho Kung Fu.

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Vinho para harmonizar com o rango vegetariano (Foto: João Gabriel Galdea/CORREIO)

Para quem for passar por Buenos Aires, no lado leste do país, uma boa pedida sem carne é o restaurante Gioia Cocina Botánica (@gioiacocinabotanica), que fica no hotel Palácio Duhau (@PalacioDuhau), que apresenta uma cozinha à base de plantas e que não usa nenhum produto de origem animal.

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Desvalorização do peso ajuda, mas é preciso ficar atento
Com o peso argentino em queda livre, a viagem para a Argentina está mais em conta para os BRs, mas é preciso saber quais caminhos seguir para aproveitar isso da melhor maneira possível. A perda acumulada da moeda dos hermanos em relação ao real, no ano, é de quase 18%, chegando a 25% ante o dólar.

Esta semana, a moeda brasileira estava conseguindo comprar até 56 pesos, mas essa quantia pode baixar bastante a depender da forma que você fará a conversão. (A inflação por lá, que pode bater 70% até o final, também reduz um pouco essas expectativas).

A opção mais popular atualmente é o serviço da rede Western Union, famoso serviço de transferências internacionais, no qual R$ 1 chega a valer 55 pesos argentinos atualmente. O problema é na hora de resgatar essa grana, situação que tem gerado filas imensas nas lojas da rede em Buenos Aires, por exemplo.

Segundo o Estadão Conteúdo, para quem opta por fazer a troca junto a um arbolito, como são chamados os cambistas que ficam na Rua Florida, no centro da capital argentina, a oferta para cada real baixa para 42 pesos.

Mas entre carregar bolos de peso no bolso e usar o cartão de crédito, a primeira opção é muitíssimo mais indicada. Isso porque, por se tratar de um meio oficial, o câmbio é feito pelo dólar oficial (50% a menos em relação ao dólar paralelo). A contraindicação se amplia ainda mais no fato de o cartão de crédito estar sujeito à cobrança do Imposto brasileiro sobre Operações Financeiras (IOF), hoje em 6,38%.

Para piorar, muitos locais não aceitam cartão, preferindo dinheiro vivo ou, o que é bem comum, o uso do Mercado Pago – que é usado por lá mais ou menos como fazemos o uso do Pix.

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Dicas extras

  • City tour: Se não tiver condições de alugar um carro ou contratar um serviço de transporte particular em Mendoza, opte pelos ônibus e vans fretados que fazem o city tour, passando pelos principais pontos turísticos e vinícolas.
  • Tempo de viagem: Cinco dias é o período ideal para conhecer bem Mendoza. A viagem para a cidade de San Juan dura cerca de 2h. Para Barreal, 6h, passando por paisagens incríveis.
  • Inverno – A temperatura chega a ficar abaixo de zero na estação. E quanto mais alto o lugar (caso de San Juan), mais frio fica. Pode caprichar na roupa de frio.

*O repórter viajou a convite do Instituto Nacional de Promoção Turística (Inprotur) e do Visit Argentina.

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