Espólio radical (por Mary Zaidan)

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Derrotados depois de quatro anos de fama, políticos e apoiadores do ex que se aglutinaram sob o rótulo de direita vivem o seu inferno. Parte deles, incluindo os que se sentem traídos ou abandonados, continua querendo incendiar o mundo mesmo após as prisões pela tentativa fracassada de golpe de Estado do dia 8. Outra põe panos quentes, perdoa, inverte e tortura os fatos até chegar a confissões absurdas. Sem qualquer intenção de dar voz a um pensamento de direita civilizada, salutar nas democracias, o que está em disputa é o espólio de Jair Bolsonaro, símbolo do extremismo, com as hordas de radicais que fizeram o sucesso do “mito”.

O primeiro a se aproveitar do vácuo deixado por Bolsonaro, pelo silêncio de quase dois meses e fuga para os Estados Unidos, foi o ex-vice Hamilton Mourão, senador eleito pelo Rio Grande do Sul. Em cadeia de rádio e televisão no último dia do ano, usou a Presidência interina para acariciar as Forças Armadas, pedir que os acampados nas portas dos quartéis voltassem para casa e criticar a mudez do titular desertor. Se alguém imaginou que ele falava com a direita mansa, o desencanto veio logo: considerou democráticas as manifestações contestando o resultado das eleições e, consequentemente, a legitimidade do eleito.

De lá para cá a fila de pretensos herdeiros de Bolsonaro só cresce. Ex-ministro de Infraestrutura, o governador de São Paulo Tarcisio de Freitas largou na frente. O afilhado do capitão mistura doses de pragmatismo – como o de participar de encontros coletivo e individual com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva – e puxa-saquismo, abrigando bolsonaristas-raiz, controversos e radicais, embaixo de suas asas.

Também aspirante à liderança dos sem-mito, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, corre alucinadamente atrás do aval dos extremistas. Seguindo à risca as mensagens golpistas nas redes sociais, deu eco à desconfiança de que os atos do dia 8 teriam ocorrido sob o beneplácito de Lula, que lucraria com o papel de vítima. Uma “suposição”, enfatizou, na tentativa de agradar a turba sem incorrer em crime.

Valdemar Costa Neto, presidente do PL, entoou discurso semelhante, culpando o governo Lula de não ter protegido a contento as sedes dos Três Poderes. Pelo raciocínio do “gênio” que comanda o partido de Bolsonaro, a vítima de um assalto, por exemplo, seria culpada pelo roubo por não prever a chegada do bandido.

Sérgio Moro, eleito senador paranaense pelo União Brasil, ex-detrator que reatou o namoro com o chefe ainda na campanha, e o governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL), são outros que disputam a liderança entre os radicais bolsonaristas. E Ricardo Salles, Damares…

Os filhos, herdeiros naturais que o pai enfiou na política para garantir o empreendimento familiar, têm sido comedidos. Pelo menos até agora. Aparecem pouco nas redes e evitam comentários sobre os atos golpistas e a posição dos aliados. No máximo, viu-se uma reclamação do deputado Eduardo sobre as condições precárias da prisão dos apoiadores do pai. Ele chegou a postar a falsa morte de uma detenta, mas apagou o rastro velozmente. Devem crer, e com carradas de razão, na força do sobrenome.

É compreensível que se tente tirar proveito da popularidade de Bolsonaro, e não foram poucos os que o fizeram com sucesso. Mas se até o ano passado o ex era a encarnação do anti-lulismo, as ações violentas de seus apoiadores mudaram esse eixo. Uma coisa é não querer Lula, outra é destruir tudo à frente. Mais: como combinar vandalismo e ódio com Deus, Pátria, Família e Liberdade?

Em resumo, o quebra-quebra no Congresso, na Suprema Corte e no Palácio do Planalto arruinou a adaptação tropical do slogan fascista que havia conquistado corações.

Ao ex-presidente era conferido o mérito de tirar a direita do armário, aquela que por anos a fio teria sido inibida pelo “constrangimento” imposto pela esquerda. Tudo balela. Bolsonaro abriu a tampa do esgoto, arregimentou a escória, enganou ignorantes e incentivou a barbárie. Em nome da direita, fazendo um tremendo mal a ela.

Os que brigam pela herança bolsonarista podem até fazer de conta que não, mas sabem que é esse o espólio que disputam.

Mary Zaidan é jornalista

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