Um debate sobre a relação entre guerra e religião volta a ocupar as manchetes, com o Secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, vinculando operações militares a uma leitura religiosa da história. Em meio ao governo de Donald Trump, ele sustenta que conflitos globais têm uma base moral e divina, citando as Cruzadas e ostentando símbolos que reforçam essa leitura. O tema provoca reflexões sobre a separação entre fé e política externa e sobre como tal narrativa pode influenciar decisões estratégicas no cenário internacional.
Hegseth afirma, publicamente, que as ações dos EUA no Oriente Médio, na África e na América Latina vão além de uma simples política externa. Segundo ele, os conflitos possuem uma base moral cristã e são “divinamente orientados”. Em ocasiões públicas, ele pediu que o povo americano orasse pela vitória e pela segurança das tropas, descrevendo momentos de guerra como oportunidades para que a nação se mantenha firme, com a oração ocorrendo “todos os dias, de joelhos, com famílias, em escolas e igrejas, em nome de Jesus Cristo”. O secretário também exibe, em sua Tatuagem, a frase latina Deus vult, reforçando a leitura de que a fé orienta a missão militar. Em seu livro American Crusade, lançado em 2020, ele afirma que as Cruzadas foram fundamentais para salvar a Europa cristã, sustentando que sem esse período não haveria Reforma Protestante, nem Renascimento, nem Europa como conhecemos—e, por extensão, nem América.
A narrativa propositadamente remete ao passado medieval para justificar ações presentes. O texto destaca que as Cruzadas são apresentadas não apenas como campanhas históricas, mas como marco de uma linha moral que, segundo Hegseth, explica o papel dos EUA no mundo. Ao associar a atual guerra a essas eras, o secretário procura ampliar o peso político de uma fé cristã na condução de decisões estratégicas, conectando símbolos religiosos a decisões de defesa sob a liderança de Trump.
Para sustentar essa leitura, o texto recorre à história dos Templários, também conhecidos como Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão, criados por volta de 1119, após a Primeira Cruzada, com a função de proteger peregrinos na Terra Santa. Os Templários tornaram-se poderosos, financiando quiseram terras e dinheiro de reis e nobres e inauguraram, na prática, um sistema bancário que facilitava depósitos na Europa e saques no Oriente. O símbolo da Ordem de Cristo — a cruz vermelha nas velas das caravelas — é apresentado como o legado visível que conectou navegação, descobertas e fé religiosa.
Segundo o texto, a história toma contornos ainda mais dramáticos com a Ordem dos Templários, que ficou rica a ponto de atrair dívidas do rei Filipe IV da França. Em vez de pagar a dívida, Filipe IV prendeu os Templários, acusando-os de heresia, torturando-os e executando-os; o último grão-mestre, Jacques de Molay, foi queimado em 1319. A narrativa afirma que os Templários eram católicos radicais, sem relação com Martinho Lutero e com a Reforma Protestante, que moldou o sistema institucional dos Estados Unidos. Essa visão é apresentada como um alerta sobre como a leitura de passado pode ser usada para justificar violência presente.
Entre as linhas, o texto questiona a apropriação histórica feita por quem vê nas Cruzadas uma justificativa para ações militares contemporâneas, sugerindo que esse procedimento empurra o debate para uma leitura voltada ao confronto religioso. Em vez de retomar esse passado para legitimar decisões de defesa, o ideal é buscar soluções ancoradas em valores democráticos, legais e humanos, sem recuar a um quadro histórico que tente naturalizar violência.
Qual é a sua leitura sobre a relação entre fé, história e decisões de defesa? Deixe sua opinião nos comentários e compartilhe suas perspectivas sobre esse tema que envolve identidade nacional, memória histórica e responsabilidade política.
