Ventura Profana não é apenas uma cantora, artista, pastora, missionária e travesti. Ela é um ser multifacetado com diversas personas que coexistem em um único corpo. Apoiando-se na fé e na expressão artística, busca desconstruir os estereótipos que cercam a vida das pessoas travestis, demonstrando que elas possuem a capacidade de ocupar diferentes papéis na sociedade.
Em uma entrevista ao Metrópoles, Ventura Profana compartilhou sobre suas múltiplas atuações com um propósito comum: inspirar pessoas travestis a buscarem a liberdade e a alegria de viver.
“Como artista, parte da minha investigação está voltada para a criação de um espaço de liberdade, um local onde as pessoas possam encontrar paz. Um ambiente que não reproduz as violências do mundo, permitindo que as indivíduos travestis entrem, meditem e se esqueçam, ao menos por um momento, das dores existentes neste mundo”, explicou.
Ventura Profana desempenha inúmeras funções em sua vida – é pastora, artista, missionária e travesti. Através de sua arte e fé, busca ativamente transformar vidas. Acreditando no poder da arte e da fé para provocar mudanças sociais significativas, ela enfrenta desafios e estigmas impostos pela sociedade.
Em meio a uma história marcada por difamações e violência, Ventura Profana se destaca por sua coragem e determinação em desafiar as normas sociais estabelecidas. Ela aponta a existência de uma campanha difamatória e de segmentação das experiências trans, resultado de um desejo de controle e conformidade social. Para ela, é fundamental lutar pelo direito à liberdade e pela desconstrução de estereótipos e preconceitos.
A relação de Ventura Profana com sua fé e com Deus é um elemento central em sua trajetória. Criada em um ambiente familiar ligado à Igreja Batista, ela enfrentou desafios e conflitos desde cedo. Apesar das opressões enfrentadas por sua identidade travesti no ambiente religioso, nunca abriu mão de sua relação com a espiritualidade e com suas crenças.
A influência da Bíblia e dos ensinamentos religiosos moldaram a visão de mundo da artista. Para Ventura Profana, a dificuldade em lidar com a travestilidade não está relacionada a Deus, mas sim à história da humanidade e às questões sociais enraizadas na sociedade. Sua jornada inclui desafios, questionamentos e uma busca constante por respostas e aceitação.
Ao reivindicar os títulos de pastora e missionária, Ventura Profana rompe com estereótipos e constrói um caminho de representatividade e empoderamento. Sua trajetória simboliza uma busca por igualdade, respeito e dignidade para a comunidade travesti, evidenciando a importância da diversidade e da inclusão em todos os aspectos da sociedade.Ventura Profana tem como objetivo principal transformar indivíduos por meio de suas crenças subversivas, fundamentadas na liberdade e na fé cristã. De acordo com a artista, “Jesus foi sempre um símbolo de liberdade ao longo de toda a sua trajetória. Ele lutou pela liberdade, morreu em nome da liberdade. Então, acredito que não consigo me desapegar de Jesus por conta disso.”
Utilizando a arte como ferramenta inspiradora para as travestis, em 2020, Ventura Profana lançou o álbum intitulado Traquejos Pentecostais, abordando as dificuldades enfrentadas para sobreviver e se estabelecer em um mundo que, segundo ela, “condena as vidas travestis”. A artista compartilhou: “Eu desejava que as travestis deste país tivessem consciência de que há um processo político contra nossas vidas, mas também que soubessem que nossa vida é bela e repleta de possibilidades.”
Para o ano de 2024, a artista planeja o lançamento de novas músicas que se distanciam do ambiente hostil de guerra e se aproximam dos prazeres que podem ser vivenciados. Ventura Profana afirmou: “Não estou mais disposta a criar pensando na guerra ou me vinculando obrigatoriamente a uma narrativa de dor. Além da música, a artista realiza apresentações artísticas que buscam acolher a comunidade LGBTQIA+ e denunciar a condenação das vidas travestis: “Eu não vivo apenas para a guerra, vivo também em busca de prazer.”
Diante das transformações sociais, onde travestis ocupam novos espaços para além da prostituição, tendo como exemplo a presença da deputada Erika Hilton no Congresso Nacional, Ventura Profana acredita ser o momento de mudança. A artista ressaltou: “Também mereço celebrar, viver a vida, desfrutar das alegrias e não apenas da dor e do trabalho árduo. Viver é uma infinidade de outras experiências. Acredito que devemos focar nessa infinidade. Travestis podem ser médicas, políticas, professoras, engenheiras, o que desejarem. Não há limites. A transformação está chegando para nós.”
Por fim, Ventura Profana destaca que as batalhas diárias são pensadas no futuro da humanidade. Segundo suas palavras, “O que travestis e homens trans racializados deste país estão tramando hoje não é apenas para o presente. Estamos construindo um plano de existência que se estende daqui a 200 anos, 600 anos, 1000 anos, talvez. É um processo lento, mas aos poucos caminhamos em direção a essa mudança.”

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