Yügüh: entenda como povos indígenas produzem sal a partir de planta

Publicado:

compartilhe esse conteúdo

No Alto Xingu, os Waurá preservam uma tradição milenar de temperar alimentos com um sal vegetal feito a partir do aguapé, a planta aquática Eichhornia crassipes. O preparo, conhecido como Yügüh/Agahü, transforma as folhas do aguapé em um “sal de índio” ainda observado em comunidades isoladas da região.

O aguapé é uma planta de rápida reprodução, comum em lagoas e rios, e amplamente considerada invasora em muitos ambientes do Brasil. Ainda assim, na localidade, a planta ganha uso específico como recurso alimentar, possibilitando a produção de um condimento essencial para a alimentação tradicional.

Foto colorida de planta aquática com flores roxas e folhas verdes. - Metrópoles.
Planta aquática comum em lagoas e rios, o aguapé dá origem ao sal indígena tradicional

O processo começa com a colheita das folhas do aguapé, que são secas ao sol e, em seguida, queimadas. O que sobra na queima forma as cinzas que dão origem ao sal de índio. A técnica é reconhecida como parte do saber tradicional das mulheres indígenas, responsáveis pelo preparo dentro das localidades.

“As cinzas trazem um sabor salgado e são usadas apenas após a comida estar pronta”, explica Mauro Mourão, destacando que a técnica é uma expressão do saber popular das mulheres da região.

Documentários etnográficos, com apoio da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, mostram indígenas Waurá coletando aguapé em lagoas e transformando a planta em sal por meio de etapas cuidadosas de secagem e queima.

O aguapé, conhecido por suas folhas largas, flutuantes e flores roxas, é invasor em muitos ambientes aquáticos. No contexto do sal indígena, porém, a disponibilidade da planta viabiliza que localidades sem acesso ao sal marítimo desenvolvam um condimento essencial para a alimentação.

Nutricionalmente, o sal indígena artesanal difere do sal comum, pois o que predomina é o cloreto de potássio (KCl), com pouco ou nenhum sódio. O potássio é importante para funções como contração muscular, funcionamento cardíaco e equilíbrio da pressão arterial.

“Ele é rico em potássio e praticamente desprovido de sódio, mas isso não significa que haja benefícios comprovados à saúde ou que possa ser usado como estratégia para reduzir problemas como hipertensão”, esclarece a nutricionista Fernanda Figueira.

Importante destacar que não existem estudos clínicos que comprovem benefícios terapêuticos do sal de índio tradicional. Sua composição é descrita com base em observação e relatos locais, não em evidências científicas robustas.

O sal de índio feito a partir do aguapé é, acima de tudo, uma expressão cultural de como povos da região adaptaram recursos naturais disponíveis para suprir uma necessidade ancestral: temperar alimentos. Seu valor cultural desperta curiosidade, mas, do ponto de vista nutricional, o Yügüh não substitui nem aprimora automaticamente a dieta moderna e seu uso fora do contexto tradicional merece cautela e orientação qualificada.

O foco da alimentação contemporânea é reduzir o consumo total de sal, privilegiando alimentos frescos, ervas e especiarias naturais para temperar as refeições, sem depender de condimentos de origem duvidosa.

Em resumo, o sal indígena feito de aguapé representa uma forma singular de saber das comunidades do Xingu, mantendo viva uma prática antiga de temperar alimentos. Para quem se interessa pela culinária tradicional e pela biodiversidade, é um tema que merece respeito e compreensão, sem perder o olhar crítico sobre saúde e segurança alimentar.

Curioso para compartilhar sua opinião ou experiência com saberes tradicionais e temperos regionais? Conte nos comentários como essas práticas influenciam a alimentação atual de sua região e quais aspectos você considera mais relevantes para a saúde e a cultura local.

Facebook Comments

Compartilhe esse artigo:

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Falso agiota é preso com videogame obtido em golpe virtual

Um homem acusado de se passar por agiota para aplicar golpes virtuais foi preso, na tarde de quinta-feira (8/1), em São José do...

Após apoio de artista e deputada, Escola Afro-brasileira Maria Felipa anuncia manutenção das atividades

A Escola Afro-brasileira Maria Felipa, a primeira do Brasil a oferecer educação afro-referenciada e antirracista reconhecida pelo Ministério da Educação, anunciou que continuará...

Pescador filma jacaré gigante nadando tranquilo em rio: “De estimação”

Um jacaré gigante foi flagrado nadando tranquilo nas águas do Rio Javaés, na Ilha do Bananal, em Lagoa da Confusão, no Tocantins. O...