Bonobo Kanzi demonstra capacidade de imaginar objetos ausentes, desafiando noções sobre cognição humana
Um estudo liderado pela bióloga brasileira Amália Bastos, da Universidade de St Andrews, na Escócia, mostra que o bonobo Kanzi foi capaz de raciocinar sobre objetos que não existem no momento. Publicada na revista Science, a pesquisa coloca em debate a ideia de que apenas os seres humanos conseguem imaginar situações ausentes e complexas.
O experimento envolveu três etapas com dois copos vazios e uma jarra vazia, simulando o derramamento de suco em apenas um recipiente. Em seguida, o conteúdo imaginário era transferido para um dos copos, e Kanzi precisava indicar qual ainda continha o suco fictício. De forma consistente, ele apontava para o copo que, na simulação, continha o líquido.
“Ele entendia que o suco não estava fisicamente ali, mas acompanhava mentalmente a situação imaginada”, explica Amália Bastos.
Kanzi vive em centros de conservação e pesquisa nos Estados Unidos e é considerado um macaco enculturado, que aprendeu a se comunicar com humanos por meio de mais de 300 símbolos visuais e compreende cerca de 3.000 palavras faladas. Este foi o primeiro estudo a demonstrar de modo convincente a capacidade de abstração em um primata, algo central para o pensamento humano.
Para reforçar os resultados, a equipe realizou testes adicionais. Em um deles, o macaco precisava escolher entre copos com suco real e copos vazios, sempre optando pelo copo cheio, o que indicou que ele distinguia claramente o que era real do que era imaginário. Em outro teste, potes com uvas serviram para confirmar a mesma habilidade de abstração em contextos diferentes.
“Isso mostra que não se tratava de um truque específico, mas de uma habilidade flexível, aplicada em contextos distintos”, afirma Bastos.
O estudo também levanta a discussão sobre o papel da linguagem na imaginação. Enquanto parte dos especialistas defende que a abstração depende de linguagem simbólica, outros acreditam que essa capacidade já pode existir de forma natural em primatas. Bastos cita registros de chimpanzés selvagens que carregam galhos como se fossem filhotes, sugerindo que os animais podem estar mais próximos de nós do que pensávamos.
A pesquisa, conduzida pela bióloga Amália Bastos em colaboração com Christopher Krupenye, foi publicada nesta semana na Science, uma das publicações científicas mais prestigiadas do mundo. Kanzi viveu grande parte da vida em centros de conservação e pesquisa nos estados da Geórgia e Iowa, nos EUA, e ficou conhecido por suas contribuições para o estudo da cognição animal.
Para os pesquisadores, a capacidade de imaginar objetos ausentes pode não depender exclusivamente da linguagem, levantando novas questões sobre a evolução cognitiva dos primatas. Bastos afirma que cada descoberta derruba fronteiras que antes pareciam exclusivas da humanidade e aproxima mais os animais do nosso entendimento de mente.
Agora, ao refletir sobre o papel da imaginação e da linguagem, especialistas devem considerar como tais habilidades se apresentam em diferentes contextos e espécies, ampliando o que entendemos como cognição animal.
E você, o que acha dessa capacidade de abstração em primatas? Compartilhe sua opinião nos comentários e participe da conversa sobre como evoluiu a cognição no reino animal.

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