SP destina 95% da verba de políticas de drogas para casas terapêuticas

Publicado:

compartilhe esse conteúdo

Resumo: um estudo sobre a política de drogas em São Paulo aponta que a maior parte do orçamento destinado ao tema é direcionado a localidades terapêuticas, com fortes reservas sobre o modelo abstinente ligado a crenças. O levantamento traz dados sobre investimentos, serviço prestado e impactos no sistema de saúde, bem como víveis violações de direitos humanos, revelando um debate tenso entre uma abordagem públicas de redução de danos e práticas de internação e controle.

O estudo da Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial (IDMJR) detalha que, do total de R$ 98 milhões destinados ao tema, cerca de 95% ficaram com localidades terapêuticas, espaços religiosos e propostas que utilizam abstinência, trabalho forçado e doutrinação religiosa como tratamento. A leitura aponta ainda que esse gasto é 85% superior ao registrado no ano anterior, sugerindo uma priorização quase exclusiva por esses serviços, em detrimento de formas de atenção mais centradas na redúo de danos e na integração social.

Em dezembro, o governo de SP anunciou recorde de investimentos na política de drogas, com recursos quatro vezes maiores que em 2024. A gestão de Tarcízio de Freitas (Republicanos) informou que o montante chegou a R$ 53,7 milhões, embora o IDMJR tenha apontado outros valores. O governo destacou ainda a implementação de 13 complexos de casas terapêuticas, somando 52 unidades de acolhimento, com expectativa de inaugurar dois novos complexos em breve. As unidades já em funcionamento atenderam, segundo a administração, aproximadamente mil pacientes.

Para Fransergio Goulart, historiador e diretor executivo da IDMJR, o modelo atual de localidades terapêuticas funciona como um novo conjunto de “manicômios da atualidade”, uma percepção que remete à reforma psiquiátrica de 2001 e ao eixo da atenção psicossocial. Ele critica o fortalecimento desse campo privado, com um viéculo evangélico e neopentecostal, que, segundo ele, marcha em direção contrária da saúde pública e do cuidado integral, dificultando a alocação de recursos para CAPS e serviços de redução de danos.

O pesquisador aponta ainda um desbalanceamento orçamentário: enquanto o investimento nos centros de atenção psicossocial (CAPS) é baixo em relação ao que vai para casas terapêuticas, a tendência parece reforçar o modelo de internação como solução, alimentando uma discussão sobre a efetividade e o alcance da política de saúde pública no Estado.

Violações de direitos humanos surgem como outra tópica central. O relatório da Inspeção Nacional em Localidades Terapêuticas, elaborado pelo Ministério Público Federal (MPF) e pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), apontou práticas contrárias à legislação em diversas regioes. Entre as falhas atribuídas estão imposição de práticas religiosas, internações contra a vontade, uso de isolamento como punição e restrição de movimentos, com unidades situadas emáreas rurais distantes, o que complica o contato com familiares e a reintegração social, além de denúncias de contenção física e química.

Além das questões de localidades terapêuticas, IDMJR destaca um desequilíbrio no destino de recursos para segurança pública e para a administração penitenciária. O planejamento de 2025 reserva R$ 21 milhões para as polícias, com 92% destinados a atividades de policiamento. A Polícia Militar recebe cerca de R$ 12,7 bilhões, e a Polícia Civil, R$ 6,8 bilhões. No sistema prisional, a previsão totalé de R$ 6,6 bilhões, um montante que contrasta com a despesa em assistência hospitalar e ambulatorial para mais de 225.931 detentos, estimada em apenas R$ 160 milhões, o que representa, em média, menos de R$ 1 por preso por dia para a saúde. Esse cenário levanta questões sobre priorização e qualidade do atendimento, bem como a efetividade da ação pública em diferentes frentes da segurança pública e de saúde.

Em meio a esses dados, o debate sobre a política de drogas em São Paulo ganha contornos de avaliação de impacto social, direitos humanos e eficácia de gastos públicos. A divergência entre quem defende a redução de danos e quem aposta em modelos baseados na abstinência e em estruturas privadas com forte influência religiosa continua central para o futuro das ações públicas, com possibilidades de revisão de prioridades e de aprimoramento na articulação entre saúde mental, atendimento social e segurança.

Agora, a palavra está com moradores da região e com a sociedade civil: como você entende que o Estado deve equilibrar direitos, cuidados de saúde e controle social? Compartilhe sua opinião nos comentários e participe do debate sobre o futuro da política de drogas em nossa cidade.

Compartilhe esse artigo:

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

“Lua cheia das Flores” será nesta sexta-feira. Entenda o significado

Nesta sexta-feira, o céu preparará um espetáculo simples, porém marcante: a Lua cheia das flores. Trata-se da primeira Lua cheia do outono no...

Como apreensão de maconha desvendou “núcleo político” do PCC em SP

Uma apreensão de drogas em Itaquaquecetuba, na região metropolitana de São Paulo, em 2023, abriu o caminho para uma investigação que aponta a...

Fernando Diniz exalta Gustavo Henrique: “Jogador de nível muito alto”

Resumo: Corinthians venceu o Peñarol por 2 a 0 na Libertadores, em jogo da terceira rodada, com um dos gols marcados por Gustavo...