Em crise, Peru vai às urnas com 35 candidatos à Presidência

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Às vésperas das eleições, o Peru encara uma cena complexa: Keiko Fujimori aparece na frente das pesquisas, porém sem maioria clara entre 35 candidatos, enquanto o país observa um combate à corrupção entrelaçado a um recrudescimento da criminalidade e a uma longa tradição de instabilidade política que se arrasta há décadas.

Neste domingo (12/4), o Peru vota para escolher o presidente, compor a Câmara dos Deputados com 130 assentos e, pela primeira vez em 30 anos, um Senado com 60 cadeiras recém-estruturado. Dos 31 milhões de habitantes, cerca de 27 milhões estão aptos a votar, número que evidencia a dimensão da disputa em meio a um cenário político estremecido.

As pesquisas indicam que a candidata de direita Keiko Fujimori — filha do ex-presidente Alberto Fujimori — lidera, ainda que com vantagem modesta, com ao menos três adversários próximos: o ultraconservador Rafael López, o empresário de mídia Ricardo Belmont e o ex-comediante Carlos Álvarez. Contudo, nenhum deles supera 15% das intenções de voto, o que alimenta a possibilidade de segundo turno em 7 de junho.

Há um recorde de 35 candidatos, o que gera dúvidas entre os eleitores, como a comerciante Marlene Jimenez, que admite não ter clareza sobre para quem votar após ver a cédula. Pesquisas também apontam que 13% dos eleitores permanecem indecisos, o que mantém um segundo escalão de candidaturas relevante, segundo Nicolas Watson, da consultoria Teneo.

Combate à corrupção

Um tema central da campanha é o combate à corrupção. Atualmente, quatro ex-presidentes estão presos: Alejandro Toledo, Pedro Castillo, Ollanta Humala e Martín Vizcarra. Antes deles, Alberto Fujimori cumpriu 16 anos de prisão por violações de direitos humanos e morreu em 2024, após ser libertado por motivos humanitários. Ainda houve detenção de Pedro Pablo Kuczynski, e o ex-presidente Alan García cometeu suicídio em 2019 ao ser cercado pela polícia.

Criminalidade

Nessa campanha, porém, a criminalidade, rivaliza — em muitos casos, até supera — a corrupção como principal preocupação dos eleitores. Nos últimos anos, o Peru deixou de ser visto apenas como um país estável para registrar aumento de homicídios e de extorsões, afetando principalmente trabalhadores do transporte e pequenos empresários, conforme aponta a professora Paula Muñoz, da Universidade do Pacífico, em Lima. Dados oficiais indicam que casos de extorsão cresceram quase 20% no ano anterior, enquanto as taxas de homicídio atingiram novos recordes.

Essas estatísticas alimentam a demanda por respostas mais duras, que em alguns setores se traduzem em propostas populistas. Entre as medidas discutidas estão o envio de tropas para as ruas em áreas mais violentas, a possível retomada da pena de morte, a retirada de tribunais internacionais de direitos humanos e a permissão para que magistrados que julgam casos criminais fiquem anônimos, reacendendo a antiga ideia de “juízes sem rosto”, prática repudiada pelo Peru desde 1997.

O Peru é palco de instabilidade política há quase uma década, com oito presidentes no período e nenhum chefe de Estado conseguindo completar o mandato. Em 2021, Pedro Castillo foi eleito, mas removido pela Câmara em 2022 após tentativa de autogolpe. Sua sucessora, Dina Boluarte, chegou a figurar entre as líderes mais impopulares do mundo, com apenas 2% de aprovação, e acabou removida do cargo em outubro. Seu sucessor, José Jerí, sofreu impeachment em fevereiro deste ano. A trajetória recente mostra que as eleições podem sinalizar uma ruptura com esse ciclo ou apenas manter o país preso nele.

Segundo o analista Fernando Tuesta, o desenrolar das próximas semanas pode efetivamente mudar o rumo do ciclo político, abrindo espaço para uma virada histórica ou apenas reforçando a tendência de instabilidade que já marcou o país. O que está em jogo não é apenas quem governará, mas a confiança de eleitores diante de um conjunto de desafios persistentes.

Como leitor, vale acompanhar de perto esse desfecho. Compartilhe suas impressões sobre o quadro eleitoral peruano, o papel da lei e da segurança pública na definição do voto e como você enxerga o futuro político do país. Deixe seu comentário com sua opinião e perguntas para começarmos a conversa.

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