Distrito da Confusão (Crônicas de Odylo Costa, filho)

Escrito por: Diógenes Cunha

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Resumo: Odylo Costa, filho rememora, em tom de memória histórica, o episódio vivido há décadas durante uma sessão de habeas corpus no Fórum de Teresina. O caso envolveu a defesa de um homem considerado perigoso para a paz pública, provocando revolta popular, confrontos e a fuga de autoridades. Quarenta anos depois, o escritor questiona as atitudes do Judiciário e a coragem de quem votou contra a liberdade, refletindo sobre justiça, honra e responsabilidade pública.

O relato, escrito com a distância do tempo, traz a experiência de uma casa marcada pela política e pela censura. O pai de Odylo Costa, então juiz no Maranhão, migrara para o Piauí movido por laços de carreira e convicções. A memória mergulha no momento em que o Procurador-Geral do Estado, colega do pai na academia, defende que o habeas corpus não cabia, enquanto a família e a cidade aguardavam o desenrolar da decisão. O episódio revela como a Justiça, em meio a tensões políticas, pode ser testada pela pressão pública e pela distância entre teoria e prática jurídica.

A sessão foi interrompida de forma traumática. Grupos armados, posicionados na sala do Fórum, reagiram ao desfecho previsto e reagiram com violência, dissolvendo a reunião a tiros. O governador, o Congresso que o apoiava e a polícia local viam o ato como um protesto do povo, solidário com o governante. A cidade de Teresina testemunhou uma sequência de correria, ferimentos, sangue e, de modo trágico, a morte de um homem. Mesmo diante da turbulência, desembargadores, até então presentes, fugiram pela porta dos fundos, despojados de suas becas, em uma cena que marcaria a memória coletiva da época.

O pai de Odylo, apesar de ser um homem de lei, não deixou de participar da história que se desenrolava diante de seus olhos. Quando a beca dele ficou presa nas grades do Fórum, a frase “Corre Odylo, se não te matam” ecoou como um lembrete de que, em momentos de risco extremo, a vida pode depender de um ato de fuga e de prudência. A narrativa descreve a coragem de alguém que, mesmo diante de fuzis bem manejados, optou por não usar arma, preferindo a fuga para preservar a própria vida e a de seus entes queridos. A fuga, que aconteceu até a farmácia da Dona Lili, acabou servindo de referência para as gerações seguintes que assistem, com gratidão, à sobrevivência daquele momento.

Quarenta anos depois, Odylo Costa, filho, questiona se o homem que votou contra a libertação não teria traído a justiça caso soubesse das consequências do engaiolamento. A reflexão se estende ao papel do Tribunal e às escolhas que mantiveram a ordem, ainda que à custa da liberdade de alguém considerado um risco para a paz pública. O autor não nega a complexidade do tempo, nem a necessidade de equilíbrio entre a lei e a segurança, mas aponta para a coragem necessária para enfrentar decisões difíceis. Ao relembrar o episódio, ele também reconhece que a própria Justiça pode ser testada pela pressão social e pela proximidade de interesses políticos com o governo e o Congresso.

Odylo Costa, nessa síntese de memória e análise, entrega ao leitor uma lição que transcende o caso específico. A história de um homem que coronou sua vida pública com a defesa da ordem, a reação das ruas, a fuga do Judiciário e as perguntas que ainda persistem sobre o que é justo, ganha contorno de uma narrativa que busca entender a humanidade por trás das instituições. O texto encerra com a voz do filho, assinando a memória: Odylo Costa, escritor e jornalista, que, mesmo hoje, carrega o peso de uma época em que a lei e a vida estavam mais próximas do que se imagina.

Este episódio, divulgado originalmente nas vielas da imprensa em 8 de setembro de 1964 e registrado como memória de dezembro de 1955, continua relevante para compreendermos os dilemas entre poder, justiça e responsabilidade. Qual a sua leitura sobre a relação entre decisão jurídica e condenação de ações populares em tempos de crise? Compartilhe nos comentários sua visão sobre como a justiça pode, ou não, proteger a liberdade sem colocar a vida em risco.

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