O avanço da internet criou bolhas digitais que moldam crenças e, em muitos casos, impulsionam a radicalização. A coluna teve acesso a mais de 2 mil páginas de documentos oficiais da Abin, PCDF e PF sobre investigações de terrorismo, que revelam a presença frequente de elementos religiosos no caminho da radicalização. Segundo a socióloga Ludmila Ribeiro, da UFMG, é preciso entender que fé e convicção não são a mesma coisa, e o ambiente online aumenta o isolamento de visões de mundo.

A coluna teve acesso a mais de 2 mil páginas de documentos oficiais da Abin, PCDF e PF sobre investigações de terrorismo, que mostram a presença de elementos religiosos no processo de radicalização. A pesquisadora Ludmila Ribeiro ressalta que, apesar desse ponto, não se pode reduzir tudo a uma causa única — fé, religião ou ideologia — pois o conjunto de dados aponta detecção de padrões complexos que envolvem emoção, contexto e redes digitais.
Para Ludmila Ribeiro, é essencial distinguir fé de crença: as primeiras são convicções profundas adquiridas ao longo da vida, enquanto as segundas surgem a partir de experiências e emoções. A internet, nesse cenário, amplifica a possibilidade de manter visões inalteradas e de viver dentro de uma bolha que reforça determinadas perspectivas.
“Hoje, as interações são muito baseadas na ideia de que as pessoas precisam pensar, sentir e ver o mundo como eu vejo. É aí que nasce o extremismo”,
No centro dessa dinâmica, está a crise de identidade e a busca por pertencimento. Muitas pessoas que entram em fóruns radicais passam por momentos de frustração, deslocamento social ou sensação de invisibilidade. A internet oferece reconhecimento imediato e uma sensação de estar numa comunidade que compartilha da mesma visão de mundo.
“Em comunidades fechadas, cada comentário é validado, cada discurso é reforçado e cada manifestação de revolta encontra eco. O indivíduo deixa de se sentir isolado e passa a integrar um grupo que compartilha da mesma visão de mundo. A radicalização não ocorre de forma abrupta. Ela é gradual e comumente alimentada por reforço constante e recompensas simbólicas, como curtidas e status dentro das comunidades online.”
Diante disso, especialistas apontam para a necessidade de educação digital, reflexão crítica e espaços que promovam o diálogo, para reduzir a velocidade com que uma ideia pode se transformar em radicalização. A interoperabilidade entre políticas públicas, educação e mediação online surge como caminho para enfrentar esse fenômeno sem negar a diversidade de crenças em sociedade.
E você, quais estratégias de leitura crítica e convivência online acha que podem ajudar a prevenir a radicalização nas redes? Compartilhe suas ideias nos comentários e participe da conversa sobre como manter o debate público saudável.
