“Eu quero é distância desse povo, tá bom?”, diz motorista de Vorcaro

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Andreza Matais

Sidney Santos levava projetos de lei de interesse do banqueiro que, segundo a PF, pagava suborno a senadores para atuarem em seu favor

Reprodução/Instagram/26.jun.2026
Carros de luxo usados por motorista de Daniel Vorcaro para transportar documentos

A Polícia Federal abriu caminho para uma linha de investigação que liga o banqueiro Daniel Vorcaro a supostos favores políticos no Senado. O motorista Sidney Santos, que trabalhava para Vorcaro, revelou à coluna que quer distância de “esse povo” ao ser questionado sobre os serviços que prestava. A PF aponta que ele era responsável por entregar envelopes com documentos de dois projetos de lei de interesse do empresário ao senador Ciro Nogueira (PP-PI).

Segundo a polícia, os envios tinham conteúdo ligado a provas ambientais, fortalecendo a ligação com Henrique Vorcaro, pai do banqueiro. Ciro Nogueira, alvo de suspeitas, é apontado como destinatário de material que, de acordo com a PF, serviria para defender interesses do banqueiro no plenário, em detrimento do eleitor.

“Eu quero distância desse povo, tá bom?”, comentou Sidney, que também é conhecido como “Kiko”, ao falar com a coluna antes de encerrar a conversa. A PF descreve a triangulação: mensagens de Vorcaro e fotos enviadas pelo motorista indicaram o trajeto das entregas, em especial o dia 22 de novembro de 2023, quando houve o envio do endereço da casa de Ciro Nogueira, no Lago Sul, em Brasília.

Conforme a investigação, em 23 de novembro Vorcaro pediu que Sidney buscasse um documento na casa do senador. O motorista entregou o conteúdo ao senador por meio do assessor, e, em 27 de novembro, voltou ao local para levar dois envelopes ao Anexo I do Senado. O material foi registrado como “documento entregue”, segundo a apuração da PF.

Entre os dois projetos identificados pela polícia, um criou o Paten (Programa de Aceleração da Transição Energética) e o outro trata do mercado de crédito de carbono. Ambos passaram pelo Congresso. O Paten foi sancionado integralmente pelo presidente Lula. Já o segundo reagentou três vetos, dos quais dois foram derrubados pelo plenário em junho de 2025. Jaques Wagner (PT), então líder do governo no Senado, votou pela derrubada dos vetos, alegando seguir orientação da bancada.

Wagner deixou a liderança do governo nesta semana, seis dias após tornar-se alvo de investigações da PF por suspeita de recebimento de propina de Vorcaro. Em nota, ele afirmou que a saída foi combinada com o presidente e que continuará atuando para a reeleição de companheiros. Ciro Nogueira também votou pela derrubada dos vetos. De acordo com a PF, o motorista de Vorcaro não é alvo de investigações, nem participou das operações deflagradas até o momento.

O caso levanta novamente o debate sobre a influência de interesses privados em decisões públicas e o papel de autoridades no escrutínio de condutas que, se confirmadas, vão contra o voto do cidadão. Qual a sua leitura sobre esse tipo de relação entre poder e mercado? Compartilhe seus pensamentos nos comentários abaixo e conte como você vê esse tema.

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