O período de estabilidade da pandemia em Belo Horizonte parece estar com os dias contados. Após início de ano com superlotação de unidades de saúde por pacientes com sintomas respiratórios, o cenário parece ter voltado neste primeiro terço de junho. A cidade registra uma escalada nos casos de síndrome gripal e COVID-19 e entidades médicas alertam para o déficit de profissionais nas unidades da capital para suportar a demanda. Dados divulgados pelo Sindicato dos Servidores Públicos Municipais (Sindibel) apontam que os atendimentos a casos de síndrome gripal e COVID-19 aumentaram 286,8% nos centros de saúde e unidades de pronto-atendimento (UPAs) da capital entre 30 de maio e 3 de junho. A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) informou que segue monitorando a situação e chamou uma entrevista coletiva sobre a situação das UPAs, agendada para a manhã de hoje.
Ontem, a reportagem do Estado de Minas conversou com pacientes na porta de UPAs e centros de saúde da capital. Apesar de não haver superlotação, muitas pessoas relataram demora nos atendimentos e mais da metade apresentava sintomas de doenças respiratórias. ?? o caso da costureira Silvana Farias de Souza, de 44 anos, que esteve na UPA Leste, no Bairro Vera Cruz, Região Leste da capital. ???Comecei a apresentar sintomas na terça-feira. Estou sentindo dores muito fortes, muita tosse, e resolvi consultar para ver se não é COVID-19???, conta. Ela já aguardava havia mais de uma hora para fazer o teste rápido da doença. ???O atendimento está bem lento???, reclamou.
A dona de casa Cristiane de Almeida Guerra, de 55, ficou pelo menos duas horas esperando para fazer o teste, depois de sentir sintomas como tosse e dores no corpo, e saiu de lá com o resultado positivo para COVID-19. ???Tenho rinite, então, achei que fosse isso. Ontem (quarta-feira), comecei a sentir uma forte dor de cabeça, que não passava de jeito nenhum, por isso decidi vir aqui???, conta. ???Esta foi a primeira vez que peguei a doença. Não estava esperando, pois me cuido bastante???, disse a dona de casa, que tomou duas doses da vacina ??? a terceira já está disponível para a faixa dela.
A gerente de logística Nammibia Brites Barbosa, de 33, também tem rinite e desconfiou dos sintomas depois de alguns dias sem melhora no quadro. ???Já fiz o teste e deu negativo. ?? só uma crise de rinite mesmo, mas que está demorando mais do que o normal para passar???, conta. Mesmo já tendo tido COVID-19, a vendedora Karine Cecília Leite, de 36, avalia que a doença veio mais forte dessa vez. ???Testei positivo na quarta, mas tive que voltar, pois estou me sentindo muito mal. O cansaço está muito forte, tenho sentido falta de ar na hora de levantar. Mal consigo ficar em pé???, conta. Após ter tomado duas doses da vacina, ela diz que esperava sintomas mais leves. ???Nem na primeira vez que eu tive, que foi antes de tomar a vacina, fiquei desse jeito. ?? ainda pior ter que aguentar essa longa espera por atendimento???, reclama, depois de quase duas horas de espera.
A gastrônoma Jacqueline Almeida, de 52, levou o filho Bernardo, de 6 , para fazer o teste. ???Ele está tossindo bastante. Ainda não tomou a vacina, então, a gente fica preocupada???, disse. As vacinas estão disponíveis para crianças de 5 a 11 anos de idade.
VACINAS E MÁSCARAS Para o infectologista Carlos Starling, que integrou o extinto Comitê de Enfrentamento à COVID-19 de BH e hoje faz parte de grupo popular formado por médicos e entidades da sociedade civil para monitorar a doença na cidade, a baixa adesão aos reforços das vacinas nos grupos já chamados e até mesmo na primeira e segunda doses entre o público infantil é uma das questões na base da nova escalada de casos de COVID-19.
???Temos subvariantes da ??micron circulando em BH que são muito preocupantes, variantes que têm um potencial de agressividade maior e de transmissibilidade. Elas podem afetar principalmente as pessoas com vacinação incompleta, um percentual alto da população. Isso nos preocupa???, avalia Starling. O infectologista completa afirmando que as vacinas perdem validade com o tempo e, por isso, é preciso que as pessoas estejam em dia com o calendário vacinal. Em BH, 64,5% das pessoas já receberam o primeiro reforço do imunizante contra o coronavírus. O número de crianças com as duas doses também é baixo, apenas 56,9% do público entre 5 e 11 anos.
As máscaras, de uso facultativo em Belo Horizonte desde 28 de abril, são apontadas como medida essencial por Starling. ???A banalização do uso de máscaras e das barreiras de contato é algo muito sério. Hoje, pelo comitê popular, estamos sugerindo (o retorno obrigatório), porque não temos outra forma de fazer as coisas. Que todas as pessoas voltem a usar máscara em ambientes fechados???.
O médico defende ainda a volta da divulgação de dados que compunham o Boletim Epidemiológico e Assistencial da prefeitura nos dois primeiros anos da pandemia. Entre eles, os índices de ocupação de leitos por pacientes com COVID-19, que, segundo ele, facilitam o entendimento da população sobre o estágio da pandemia: ???Um bom parâmetro é saber como está o número de internações. Essa informação, junto com a incidência do vírus, serve para que a população tenha uma noção de como os casos da doença estão se comportando???.
Depois de cerca de dois anos com edições diárias de segunda a sexta-feira, o Boletim Epidemiológico da PBH passou a ter duas edições semanais e informações reduzidas a partir de abril deste ano. A ocupação de leitos nos hospitais e a taxa de transmissão do vírus na cidade não constam mais nos informativos.
Em redes particulares, como a Unimed, dados mostram que, entre 29 de maio e 4 de junho havia 288 pessoas internadas com síndromes respiratórias nos hospitais da Região Metropolitana de BH. Há quatro semanas, o número era de 193 pacientes. Um aumento de quase 50%.
O QUE DIZ A PBH Em nota, a PBH informou que, sobre as máscaras, estão mantidas as regras vigentes, com a recomendação do uso nas escolas públicas e privadas, especialmente nas salas de aulas. A Secretaria Municipal de Saúde informa que segue monitorando diariamente a situação da COVID-19 na cidade e, caso seja necessário, e com base em dados epidemiológicos e evidências científicas, outras medidas poderão ser prontamente adotadas.
*Estagiária sob supervisão da subeditora Rachel Botelho
Para profissionais, segurança está em jogo
Cerca de 25.800 pacientes com suspeita de gripe ou COVID-19 foram atendidos nas unidades públicas de saúde de Belo Horizonte durante a semana entre 30 de maio e 3 de junho, aponta o Sindibel. A entidade chama a atenção para a semelhança do número com o registrado em janeiro deste ano, quando 26.792 pessoas foram atendidas com sistema respiratório em cenário de pressão provocado, principamente, pela chegada da variante ??micron do coronavírus.
Naquele mês, o então secretário municipal de Saúde Jackson Machado anunciou a ampliação no horário de atendimento dos centros de saúde e a contratação de mais profissionais para a rede pública da capital. Mas o Sindibel afirma que ainda há uma defasagem de médicos na cidade. Segundo dados apurados pelo sindicato, pelo menos 120 das 589 equipes de Saúde da Família estão sem médicos e faltam 80 pediatras, inclusive nas UPAs.
De acordo com Bruno Pedralva, coordenador de comunicação do Sindibel, há também uma carência de 80 pediatras no sistema público da capital. Segundo ele, há uma grande cobrança para que a prefeitura nomeie profissionais que passaram em concurso público já homologado em abril. No fim de maio, 35 médicos tomaram posse, com prioridade para os pediatras pela alta demanda, d
e acordo com a prefeitura. O número é visto como insuficiente para lidar com a atual situação da saúde, por entidades médicas.
e acordo com a prefeitura. O número é visto como insuficiente para lidar com a atual situação da saúde, por entidades médicas.
AFASTAMENTOS A falta de médicos é ainda agravada, segundo o sindicato, pela necessidade de afastamento dos profissionais, que também sofrem com o aumento de casos de síndromes respiratórias. Levantamento feito pelo Sindibel aponta que entre segunda (6/6) e quarta-feira (8/6), 503 profissionais foram afastados por motivos de doença nos 152 centros de saúde de BH. O diretor do Sindicato dos Médicos de Minas Gerais (Sinmed-MG), Artur Oliveira, avalia que a pandemia está sendo negligenciada pela administração da capital. Segundo ele, está sendo passada a sensação de que a pandemia acabou. Ele diz ainda que os casos crescentes de síndromes respiratórias se somam a uma demanda represada de tratamentos que ficaram defasados pelo período de priorização da COVID no sistema de saúde.
???A situação ainda não está controlada. Tivemos um aumento de atendimento dos quadros respiratórios e também de internação???, disse. Segundo ele, a situação ainda não chegou à proporção da registrada no início do ano, mas é de alerta. ???O risco que estamos vivendo é uma população que ficou sem atendimento para outras doenças por cerca de dois anos e agora vê voltar a crescer o número de casos respiratórios???, aponta o médico de família.
Oliveira afirma que esse cenário aumenta o risco à segurança dos profissionais de saúde. Isso porque, sem a percepção de que os casos respiratórios ainda sobrecarregam o sistema, a população não entende a carência no atendimento a outras doenças.
O coordenador do Sindibel Bruno Pedralva, também médico do SUS, corrobora o ponto do colega. Ele afirma que há um risco de aumento na violência de pacientes contra médicos, que trabalham com equipes defasadas. ???Estamos percebendo que essa escalada contras os profissionais também vem dessa ideia de que a pandemia acabou e, por isso, querem atendimento imediato. Mas a pandemia não acabou. Na última semana de março, foram 6 mil, na última semana de maio, 26 mil atendimentos só para sintomas gripais???, opina.
A preocupação das entidades é apresentada um dia após episódio de revolta no Centro de Saúde Piratininga, em Venda Nova. Na quarta-feira, um tumulto começou quando uma criança passou pela triagem, mas não foi atendida. A mãe ficou do lado de fora da unidade e disse que fecharia a passagem até que a filha fosse recebida por algum médico. A mulher recebeu o apoio de outras cinco pessoas que aguardavam atendimento no centro de saúde. Pacientes bloquearam a passagem e insultaram os funcionários. O tumulto só foi apaziguado com a chegada das forças de segurança.
???Essa situação é uma tragédia anunciada. Nesta semana, por exemplo, havia a promessa de que seriam chamados médicos para compor a Saúde da Família e não tivemos o chamamento. Isso tem se repetido nas unidades de urgência???, disse Artur Oliveira. Segundo ele, as unidades de saúde da cidade já não contam com a presença da Guarda Municipal e faltam até porteiros. Ontem, a Prefeitura de Belo Horizonte convocou entrevista coletiva sobre a situação nas UPAs, marcada para hoje.

Facebook Comments