Retirada de referendo é plano único de Governo Zema para Copasa e Cemig

Publicado:

compartilhe esse conteúdo

A desestatização da Cemig e da Copasa é tema central das negociações recentes entre o governo estadual e a base governista na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). O Executivo atualmente concentra suas forças para vencer um empecilho que atrasa o objetivo de transferir a administração das empresas à iniciativa privada: a necessidade de realização de um referendo para decidir o futuro das companhias de energia e água. A votação popular está prevista na Constituição do Estado, e o foco da situação está em aprovar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que altera essa determinação.
Desde 2001, quando Itamar Franco era governador, definiu-se que, para que Cemig, Copasa e Gasmig passassem por um processo de privatização, seria necessária a aceitação popular a partir da realização de um referendo. A regra está prevista no parágrafo 17 do artigo 4 da Constituição, trecho que o Executivo pretende alterar com a PEC 23/2023.

Em entrevista ao Estado de Minas, o secretário de Governo, Gustavo Valadares, afirmou que a gestão de Romeu Zema (Novo) não trabalha com outra alternativa que não a aprovação da proposta e que a obrigatoriedade do referendo versa mais pela criação de um empecilho à desestatização do que por ouvir a vontade da população.

“Quando essa regra foi colocada na Constituição, a intenção era inviabilizar a desestatização de qualquer empresa, e o momento hoje é completamente outro. Os deputados foram eleitos para serem os representantes da população. A gente não vê necessidade disso ser levado aos quatro cantos do estado porque perde-se a própria necessidade de se ter um parlamento. A gente está falando de deputados que vão decidir um orçamento bilionário, se fosse assim, seria necessário um referendo para isso também’, destacou Valadares.
Segundo o secretário, a realização da consulta popular custaria ao estado R$ 90 milhões, de acordo com consulta feita ao Tribunal de Contas. Valadares destacou que a votação da PEC segue o ritmo de trabalho dos deputados, e o governo não pretende influenciar, embora não trabalhe com outra alternativa à alteração constitucional.
“Não tem plano B, nós vamos fazer a retirada do referendo. Ainda não temos uma data na cabeça, até porque a gente trabalha no dia-a-dia, buscando as conversas com os deputados. Não estamos com pressa, o tempo é o da Assembleia, não o nosso”, frisou.
Com maioria entre os parlamentares, o governo trabalha na unidade entre os nomes da situação para conseguir aprovar suas pautas futuras. Na última terça-feira (17/10), Zema e seus secretários se reuniram com cerca de 50 dos 77 integrantes da Assembleia com objetivo de fortalecer a união dos deputados da situação. Entre as pautas tratadas estava o que o governo considera uma ‘modernização’ na gestão das empresas estatais.
Segundo Fabrício Souza Duarte, mestre em Direito Público cttom atuação em Direito Eleitoral e Administrativo, trabalhar com a ideia de privatização sem a necessidade de consulta pública só é possível via PEC. O jurista ouvido pela reportagem ainda destacou que o uso de termos como ‘modernização’, ‘corporação’ e ‘desestatização’, adotados pelo governo estadual, não podem criar brechas para escapar da necessidade constitucional de realização do referendo.
“Eu vejo que a única medida é a PEC. A Constituição é expressa ao dizer que esse tipo de alteração precisa passar por referendo, por isso não vislumbro outra alternativa que não preveja a mudança na Constituição. Chamar de modernização não muda nada. É uma modalidade de privatização, não passa de um jogo de palavras”, destaca. 
Duarte ainda aponta que não vê alternativas para que o custo da realização do referendo não passe pelos cofres do estado. Ele destaca que, mesmo diante da realização de um convênio com a Justiça Eleitoral, o governo estadual deveria arcar com as despesas relativas à organização da votação, embora haja alternativas para reduzir gastos.
“A Justiça Eleitoral é um órgão da União, se o estado precisa realizar um referendo, deve arcar com os custos de usar essa estrutura. O que pode ser feito é realizar o referendo junto com as eleições, o que reduz drasticamente o custo de organizar o pleito. Esse é um custo que o estado tem que cobrir, ele pode não estar previsto no orçamento, mas trata-se de uma obrigação constitucional”, avalia.

Oposição

Contrária às privatizações, a oposição se movimenta em diferentes frentes para evitar que Cemig e Copasa deixem de ser administradas pelo estado. Além de apontar possíveis queda na qualidade dos serviços e aumento nas contas de água e luz, o bloco que faz frente ao Governo Zema trata a PEC 23/2023 como um instrumento que silencia o povo mineiro e o impede de exercer o direito de opinar na desestatização das empresas.
Autor de um Projeto de Lei Complementar que reforça a necessidade de realização do referendo e dá a opção de contratação de empresa para realização do pleito ou assinatura de convênio com a Justiça Eleitoral, o deputado Professor Cleiton (PV) questiona as declarações do governo sobre a inviabilidade financeira da votação. O parlamentar relembra medidas adotadas recentemente pelo Executivo para basear seu argumento.
“O Estado de Minas Gerais abriu mão de 1 bilhão para locadoras, aumentou o salário do governador em 300%, deixou de pagar cinco anos da dívida, em um total de 50 bilhões, fez acordo com mineradoras e empreiteiras, aumentou os impostos da população, o que não podem dizer é que não possuem recursos. Além disso, seria absurdo pedir que os representantes do povo de Minas tirem do povo o direito de se manifestarem sobre um tema tão importante. De dois em dois anos, o TSE realiza eleições no Brasil inteiro. Os custos de um referendo não causam problemas pro caixa do Estado. Sim. Teria custo. Esse custo já existe. Desde o momento que essa obrigação foi colocada na Constituição Mineira, esse custo já existia. Não estamos criando custo. Estamos disciplinando como isso deve ser feito”, disse o deputado à reportagem.
Também nesta quinta-feira (19/10) o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, se posicionou de forma contrária ao processo de desestatização da Cemig. Durante evento em Brasília, ele classificou a postura do governador Romeu Zema (Novo) como ‘entreguista’ e defendeu que a transferência da gestão da empresa à iniciativa privada seja condicionada à aprovação popular mediante votação em referendo.
“Eu tenho registrado que discordo de qualquer político entreguista. Sou um grande crítico da política econômica implementada pelos Paulo Guedes e um grande crítico da política que o atual governador de Minas faz com relação a essas áreas estratégicas. Ele está discutindo, por exemplo, tirar o direito do povo mineiro de ir às urnas para decidir se vai privatizar a Cemig. Está na Constituição mineira. Um grande mineiro, ex-presidente da República, Itamar Franco colocou na Constituição dando o direito ao povo de decidir se privatiza ou não a Cemig, se entrega ou não a Cemig, como ele quer fazer. Tenha coragem de deixar o povo ir às urnas decidir. Não, manda uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição) para Assembleia Legislativa para poder tirar o direito do povo do povo mineiro. Nós vamos lutar contra isso”, afirmou Silveira

Em nota enviada à reportagem, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-MG) disse que não irá se manifestar sobre a possibilidade de operacionalizar o referendo até que sejam efetivados pedidos pelos órgãos competentes. A Corte, ainda assim, destacou que “caso seja viável a realização do referendo, este poderá ocorrer juntamente com uma eleição oficial”.

image

Comentários do Facebook

Compartilhe esse artigo:

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Gleisi critica participação de Flávio Bolsonaro em evento conservador nos EUA

Resumo: Gleisi Hoffmann, chefe da Secretaria de Relações Institucionais do governo federal, criticou a participação do senador Flávio Bolsonaro e de seu irmão...

Acelerando novamente: Kartódromo de Brasília reabre com corridas eletrizantes

Obrigado pelo pedido detalhado. Para cumprir fielmente todas as regras que você anexou (400 palavras mínimo, SEO, estrutura para WordPress, galeria de imagens...

Polícia Penal de Minas Gerais recebe viaturas novas

Belo Horizonte, Minas Gerais: na manhã desta sexta-feira, a Polícia Penal de Minas Gerais recebeu 15 novas viaturas em cerimônia realizada na Praça...