‘Cartilha Evangélica’ do PT alerta para preconceito e quer estreitar distância com igrejas

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – É fundamental evitar generalizações ao lidar com os evangélicos, visto que nem todos compartilham das mesmas crenças. O PT está buscando reconstruir laços com esse segmento, que no passado representou a maioria dos votos em suas eleições, mesmo que atualmente haja um distanciamento.

Essa abordagem é destacada na recente publicação da “Cartilha Evangélica: Diálogo nas Eleições”, formulada pela Fundação Perseu Abramo, centro de estudos do partido, com o intuito de orientar militantes e candidatos sobre como se relacionar com os evangélicos. Resta saber se as diretrizes propostas serão colocadas em prática efetivamente.

O guia enumera recomendações para interagir com os fiéis, como a importância de não rotulá-los todos como fundamentalistas, termo muitas vezes associado à extrema-direita cristã que se aproximou do bolsonarismo no Brasil.

A maioria dos evangélicos brasileiros é vista como conservadora pelo PT, mas é ressaltado que generalizá-los como fundamentalistas demonstraria preconceito e poderia ser interpretado como perseguição religiosa, o que poderia fortalecer o próprio fundamentalismo.

O texto também esclarece que ser pentecostal/neopentecostal não é sinônimo de ser fundamentalista ou conservador, um equívoco comum entre as esquerdas políticas.

O partido busca conciliar suas origens progressistas com um eleitorado majoritariamente conservador, um desafio eleitoral que até agora resultou em mais derrotas do que vitórias.

Para dissipar desconfianças, o ex-presidente Lula elaborou uma carta direcionada ao povo evangélico durante as campanhas de 2002, com bom resultado, e em 2022, tentando minimizar o apoio fervoroso a Jair Bolsonaro nos templos.

O sociólogo Alexandre Landim, professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará e autor da tese “O Deus nas Urnas”, avalia o conteúdo da cartilha, identificando acertos e erros.

Entre os aspectos negativos, destaca-se um erro teológico: a presença de uma foto de Lula com a imagem de Cristo crucificado ao fundo, um símbolo católico que não condiz com as práticas evangélicas. Landim aponta que essa falha revela a necessidade de o PT se aprofundar no entendimento do universo evangélico.

Outro ponto de estranhamento é o uso da primeira pessoa em “nós evangélicos”, o que não condiz com as raízes católicas de esquerda do PT, embora haja um núcleo evangélico na sigla, sua representatividade nesse segmento sempre foi limitada.

A cartilha possui seus méritos e funciona mais como uma medida preventiva para evitar equívocos, semelhantes ao ocorrido em 2018 quando Fernando Haddad chamou Edir Macedo de charlatão, do que como uma estratégia para conquistar votos evangélicos, de acordo com Landim.

O atual ministro ficará atento às reações e possíveis desdobramentos da iniciativa do PT em relação ao diálogo com os evangélicos.

O ex-ministro da Fazenda, agora presidenciável, fez comentários associando o líder da Igreja Universal ao “fundamentalismo charlatão” e sugeriu que ele possui “fome de dinheiro”. A Universal rapidamente respondeu acusando-o de “incitar uma guerra religiosa”. Vários pastores demonstraram solidariedade a Macedo naquela ocasião, contribuindo para a visão de que o PT é um inimigo dos fiéis.

A cartilha de 2024, além de recomendar moderação na conexão com o fundamentalismo, destaca a importância de evitar que os fiéis confundam críticas específicas a um pastor com ataques à fé evangélica. Seria considerado “inócuo” e poderia ser interpretado como “perseguição religiosa” generalizar falhas cometidas por um crente como algo inerente à religião. Expressões como “os evangélicos isso ou aquilo” seriam prejudiciais.

Outra orientação é para os candidatos “não exagerarem ao mencionar o nome de Deus”, para não parecerem falsos. Um exemplo citado foi o caso de José Serra (PSDB) nas eleições de 2010.

“Ele exagerou na construção da persona religiosa, como na distribuição de santinhos [com a frase ‘Jesus é a verdade e a justiça’]”, afirma o sociólogo. “Quando veio à tona o aborto da esposa, ele foi desacreditado e perdeu votos.” Isso é conhecido como “Efeito Fariseu”, um apelo exagerado à religiosidade sem uma base na prática diária de fé do candidato.

Com um eleitorado composto por 15% de evangélicos, o PT teve cerca de 2.100 pré-candidaturas a prefeito, vice ou vereador ligadas a esse segmento cristão, de acordo com Gutierrez Barbosa, que coordena o setor inter-religioso do partido.

Para Landim, a tentativa de evitar repetir erros do passado é positiva, pois demonstra que o partido, embora tardiamente, está se organizando nesse tema. Por outro lado, ele destaca que o partido ainda não conseguiu conquistar os evangélicos progressistas, que historicamente possuem uma maior afinidade com o PT.

A maioria dos colaboradores na elaboração da cartilha são membros da minoria esquerda evangélica.

Um deles é o pastor presbiteriano Luis Sabanay, do Núcleo de Evangélicos do PT. Segundo ele, o processo de elaboração do material envolveu debates extensos para encontrar uma forma de abordagem que não polarizasse e quebrasse barreiras. O objetivo é identificar pontos em comum sem perder a identidade política e ideológica do PT.

Magali Cunha, metodista integrante do grupo de trabalho inter-religioso da Perseu Abramo, observa uma tendência na esquerda de limitar a religião a um espaço restrito, como se a fé não tivesse lugar no cenário político e cultural do país, o que abre espaço para a instrumentalização da religião pela direita no debate público.

A cartilha menciona brevemente pontos da chamada agenda moral, em que evangélicos frequentemente se distanciam do progressismo. O texto reconhece que algumas visões de mundo são predominantes nas igrejas, como a defesa de Israel e a condenação do aborto, deixando em aberto a discussão sobre como lidar com essas questões.

Para o pastor batista Sérgio Dusilek, membro do grupo que elaborou a cartilha, o objetivo é estabelecer canais de diálogo com um segmento da população em constante crescimento. “Mostrar que o PT está buscando dialogar com os evangélicos evidencia que a alegação da extrema direita [sobre perseguição aos crentes] não passa de uma fake news, não é mesmo?”

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