Um treinador espanhol que comanda o NorthEast United, da Liga Indiana, passou a figurar como sócio de uma empresa envolvida em empréstimos de grande porte no Brasil. O Ministério Público Federal investiga operações financeiras em que a BMQ Mirage recebeu um crédito de 468,8 milhões de reais do Banco Master e, em seguida, o montante foi direcionado a fundos administrados pela REAG. As informações foram veiculadas pelo jornal O Globo nesta sexta-feira (16).
Apesar dos registros empresariais, o treinador nega qualquer participação societária no Brasil e afirma não conhecer pessoas ligadas ao negócio. “Sou um treinador de futebol. Não faço ideia de uma empresa no Brasil. Só conheço pessoas ligadas ao futebol”, declarou.
Segundo apurações do MPF, o Banco Master teria feito empréstimos a empresas que, pouco tempo depois, repassavam os recursos a fundos ligados à REAG. Esses fundos seriam compostos majoritariamente por títulos de baixa liquidez e papéis sem valor de mercado, segundo a investigação.
Entre as empresas citadas está a BMQ Mirage, registrada em São Paulo como atacadista de alimentos. Embora com capital social de apenas 900 mil reais, a companhia recebeu 468,8 milhões em crédito e, logo depois, aportou 444 milhões a um fundo ligado à REAG. A carteira do fundo incluía ativos como papéis do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc).
Na ficha cadastral da BMQ Mirage, Juan Pedro Benali Hammou aparece como sócio. Os dados apontam também que o treinador é espanhol, residente em Abu Dhabi, com informações que ele confirma parcialmente, pois afirma ter vivido nos Emirados Árabes. Há ainda vínculos com um CPF brasileiro, data de nascimento correta, documento que o treinador diz não reconhecer.
“Sou um treinador de futebol. Não faço ideia de uma empresa no Brasil. Só conheço pessoas ligadas ao futebol”, reiterou.
Documentos analisados pelos investigadores indicam que o contrato de crédito firmado entre a BMQ Mirage e o Banco Master, em junho de 2024, previa que ao menos 90% do valor emprestado fosse depositado em um fundo administrado pela REAG.
O advogado Pedro Jaguaribe, representante da empresa, apresentou versões distintas. Inicialmente, afirmou que o empréstimo havia sido quitado. Posteriormente, disse que a operação não chegou a ser efetivada e que o contrato foi rescindido; sobre o aporte no fundo, clasificou o episódio como uma “questão contábil” e negou que tenha havido investimento real, linha que acompanha a apuração do MPF.
Sobre a participação do treinador espanhol, o advogado afirmou que Juan Pedro seria um investidor estrangeiro e demonstrou surpresa com as negativas públicas. “Desconheço, até porque a gente está sempre falando com o Juan Pedro”, afirmou.
Relatórios da Compliance Zero, citados nas investigações, indicam que os recursos percorreram uma cadeia de fundos por meio de transações rápidas, com títulos de baixa liquidez sendo reavaliados. Em uma operação, a reavaliação resultou numa valorização de 10.502.205%, número incompatível com qualquer parâmetro financeiro tradicional.
Ao final do circuito, parte relevante dos recursos retornava ao Banco Master por meio da aquisição de CDBs, fechando o ciclo das transações sob suspeita.
Pouco conhecido do grande público brasileiro, Juan Pedro desenvolveu carreira como treinador em clubes de menor expressão na Europa e na Ásia, antes de assumir o comando do NorthEast United. Sua presença em registros empresariais no Brasil surpreendeu até pessoas próximas ao treinador, segundo relatos da apuração.
As apurações seguem em andamento no Ministério Público Federal, que busca esclarecer a origem, o destino e a real responsabilidade dos envolvidos nas operações financeiras.
Agora, leitor, queremos saber sua opinião: você acha que casos como esse podem impactar a imagem do futebol internacional e a transparência de investimentos de treinadores estrangeiros no Brasil? Deixe seu comentário e compartilhe suas ideias.

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