Os Estados Unidos saíram da 2ª Guerra como a maior potência do mundo. Durante a 2ª Guerra, o PIB dos Estados Unidos cresceu +70%, a Inglaterra, ancorada nos Estados Unidos, +15%, enquanto a França caiu em -49%, Itália -39%, Alemanha -19%, Japão -22%, Rússia -6%.
Em Bretton Woods, um ano antes do término da 2ª Guerra, os Estados Unidos foram preponderantes no desenho do novo arcabouço político e econômico mundial: a ONU, com os Estados Unidos, Inglaterra, França, Rússia e China, no Conselho de Segurança, cada país com poder de veto; O FMI, para lidar com as contas dos países e internacionais; e o Banco Mundial, como programa de recuperação da Europa e desenvolvimento de outros países; com o lastro das moedas no ouro, em conversibilidade padrão do dólar-ouro. A OTAN foi criada em 1949.
Em 1960, o PIB dos Estados Unidos representava 40% do PIB mundial, a Europa 21%, a China 4,4%. Em 2025, os Estados Unidos 26%, a Europa 17,6%, a China 16,8%, com o seu notável crescimento a partir de meados da década de 1990. Em 1971, os Estados Unidos finalizaram, unilateralmente, a conversibilidade do padrão dólar-ouro, e entramos no padrão dólar.
Em 1989, no mês de novembro, cai o Muro de Berlim, e nos Estados Unidos tem lugar o “Consenso de Whashington”, considerando ser a economia de mercado o melhor sistema de economia e de governo em geral, tanto a nível nacional como internacional. Na sequência, dissolve-se a União Soviética em 1991. As teorizações sobre o mercado são significativas, como em “O Fim da História e o Último Homem” de Fukuyama em 1992, enunciando ser a economia liberal o modelo final do desenvolvimento econômico e político da humanidade.
Mas a história prega peças em seus atores.
O inesperado é o crescimento da China. Na Revolução Chinesa, Mao Tse-Tung negociava com as Províncias a manutenção da propriedade privada dos meios de produção em até três gerações, para que se evitassem combates, preservando assim a capacidade empresarial da China, ao contrário do ocorrido na Rússia e na União Soviética. A Grande Fome de 1958 a 1961, devido à coletivização da agricultura, e a Revolução Cultural de 1966 a 1976, na tentativa da popularização do conhecimento e da ciência, levaram o país ao caos, com forte reação de suas elites. Após a morte de Mao Tse-Tung em 1976, em 1981 o Comitê Central do Partido Comunista da China emitiu documento oficial reconhecendo ter Mao Tse-Tung cometido “erros graves”, como a Revolução Cultural que teria levado o país ao “retrocesso”, implementando as reformas para a “China moderna”, para o desenvolvimento do mercado, da capacidade empresarial, da ciência, da educação, da tecnologia e da infraestrutura, em larga escala. A China experimenta hoje forte crescimento econômico, e continuará se desenvolver aceleradamente. Além da força das reformas, a China tem ainda espaço para se urbanizar. O índice de urbanização dos Estados Unidos é de 83%, da Europa de 80%, da China em 60%, e todo processo de urbanização, do campo para a cidade, leva ao aumento da produtividade e do PIB do país.
Ao mesmo tempo em que se observa o crescimento da China, também da Índia, e de outros países Asiáticos, o “World Inequality Report”, grupo acadêmico das Universidades de Londres e Paris sediado em Paris, sob a liderança de Thomaz Piketty, indica que, nas economias de mercado ocidentais, até 1980 todas as classes sociais, a alta, a média e a baixa, prosperaram em seus rendimentos. A partir de 1980, entretanto, as classes médias perderam gradativamente o seu poder aquisitivo, gerando instabilidade nos sistemas políticos, com o surgimento de lideranças radicais de direita.
A situação nos Estados Unidos se deteriora. O país não é mais o líder da competição mundial, a renda do americano médio cai, e os preços aumentam acima dos rendimentos das classes médias.
Trump representa a mudança da liberdade e do mercado para a radicalização e as políticas protecionistas. Os Estados Unidos, ao mesmo tempo que tenta sobreviver economicamente no mercado internacional, introduz tarifas alfandegárias e ameaça os outros países com o seu poderio militar, paradoxalmente de tamanho equivalente aos poderios militares da China, e da Rússia. Os Estados Unidos mudam o tom, segundo os seus interesses, em jogo de risco.
O problema é que toda vez que um país líder mundial foi destronado de sua liderança econômica, como no caso da Inglaterra com a perda de suas colônias e taxação dos produtos da Alemanha que então se industrializava, gatilho para duas Guerras Mundiais, essas mudanças sempre ocorreram acompanhadas de guerras, com exemplos que não nos faltam para citar.
Esperamos que as guerras não ocorram dessa vez.
Ricardo Guedes é Ph.D. em Ciências Políticas pela Universidade de Chicago e Autor do livro “Economia, Guerra e Pandemia: a era da desesperança”

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