Quem vai às ruas durante o Carnaval, frequenta festivais de música ou jogos de futebol, se habituou a enfrentar falhas de conexão no celular. Em ambientes superlotados, a rede fica sobrecarregada e, por isso, é mais difícil enviar vídeos, receber mensagens ou acessar as redes sociais.
Para entender as explicações técnicas sobre a instabilidade dos celulares em ambientes de multidão e as alternativas para evitar o problema, o Metrópoles conversou com o presidente da Sociedade Brasileira de Telecomunicações (SBrT) — e professor da Escola Politécnica (Poli) da Universidade de São Paulo (USP) –, Cristiano Magalhães Panazio.
Comunicação em etapas
A comunicação dos aparelhos com a rede funciona por meio de antenas colocadas pelas operadoras em diferentes pontos da cidade. Essas antenas, chamadas oficialmente de Estação Rádio Base (ERBs), possuem uma área limitada de cobertura e de recursos, oficialmente denominados de banda – em termos técnicos, a banda é definida como o conjunto de frequências em que ocorre a comunicação entre o usuário e a antena.
Para haver conexão, ocorre um processo em duas etapas. Primeiro, o celular envia um sinal para o canal de controle da operadora, indicando que quer compartilhar ou receber dados. Em seguida, a rede fornece um “espaço” dentro da banda, de acordo com a demanda solicitada pelo aparelho.
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As ERBs são projetadas considerando a densidade daquela área. Ou seja, levam em consideração a quantidade de usuários que devem solicitar comunicação e dividir a frequência dentro da área de cobertura. Quando essa densidade é maior do que o planejado — um bloquinho de Carnaval ou festival de música, por exemplo –, o sistema fica sobrecarregado e enfrenta dificuldades para atender a todos os aparelhos.
Conexão lenta em lugares lotados
Para a primeira etapa da conexão, quando o celular envia o sinal para o canal de controle, o professor Cristiano Panazio faz a analogia de uma palestra: “Quando o palestrante termina, ele abre para perguntas. E vários participantes levantam a mão ao mesmo tempo. O palestrante precisa resolver esse conflito, dar a palavra a uma pessoa, enquanto as outras esperam. Assim, elas não falam todas ao mesmo tempo.”
Na analogia, o palestrante exerce o papel do canal de controle, enquanto os celulares seriam os participantes da palestra. O canal de controle recebe diversas solicitações de contato e as distribui, mas, às vezes, dois smartphones tentam falar ao mesmo tempo, o que é chamado tecnicamente de colisão. E, quando isso ocorre, os dois celulares ficam em “silêncio” antes de solicitar o contato novamente. Em ambientes superlotados, a frequência de colisões é muito maior, o que causa demora para “encaixar a fala” de cada celular.
Essa não é a única barreira. Mesmo que o canal de controle aceite as solicitações de todos os aparelhos, a largura da banda — “espaço” onde os dados serão transmitidos — é limitada. Quando poucas pessoas estão na área da antena, o espaço para cada usuário é maior e suporta mais volumes de dados. Mas, se uma multidão estiver dividindo a largura da banda, o espaço fica restrito e o volume de dados suportado é menor.
Para essa situação, é possível fazer a analogia de uma rodovia: quando há poucos carros, o espaço para cada um deles é maior e o trânsito flui. Mas, se a quantidade de veículos é maior que a capacidade da rodovia, o trânsito fica intenso.
O resultado é lentidão na rede, instabilidade nas chamadas de voz, dificuldade para baixar ou enviar mensagens e falhas na internet, mesmo que o celular esteja com todas as barras de sinal.
O que fazer para melhorar o sinal
Em termos estruturais, a solução é simples: basta as operadoras instalarem mais antenas para atender a todas as pessoas naquela área. Do ponto de vista econômico, no entanto, essa solução é inviável, porque representa grandes custos.
O docente lembra que, pontualmente, as empresas até solucionam o problema. Ele cita como exemplo o Grande Prêmio de Fórmula 1, em Interlagos, na zona sul de São Paulo. “Os operadores on-line colocam sistemas extras de comunicação. Novas Estações de Rádio Base [ERBs] que lidam com todos os torcedores que querem gravar seus vídeos e publicar na internet, nas redes sociais. Mas isso depende do público do evento, dos patrocinadores. E a Fórmula 1 é um evento de vários dias. Em um bloco de Carnaval na rua, que talvez tenha duração de algumas horas, não é interessante para as empresas”.
No caso dos usuários, as soluções são ainda mais limitadas. Uma alternativa muito comum é erguer o celular para o alto em busca de sinal. Segundo o professor, esse movimento até pode aumentar a taxa de transmissão, mas é ineficaz se o ambiente estiver muito lotado. Outra possibilidade é buscar uma rede wi-fi no local, o que pode ajudar a descongestionar as antenas na área.
Mas como nem sempre essa infraestrutura está disponível, a recomendação do professor Cristiano Panazio é priorizar mensagens curtas, já que áudios e vídeos têm volume de dados muito maior. E ser paciente.
“O ideal seria deixar para fazer a transmissão de vídeos depois do evento. Mas, a gente sabe que compartilhar as coisas na hora tem um valor, as pessoas querem mostrar que estão lá. Então, a rede vai, sim, demorar mais tempo. Se estiver sobrecarregada, não vai ter jeito. A melhor solução é a paciência mesmo.”
Por que o celular não funciona direito em lugares lotados?
- As operadoras instalam antenas espalhadas pela cidade considerando a quantidade de aparelhos na área.
- Quando esse número aumenta significativamente — em razão de um bloquinho de Carnaval ou festival de música, por exemplo –, o sistema fica sobrecarregado e enfrenta dificuldades para atender a todos.
- Como há muitos aparelhos tentando se comunicar com a antena, ocorrem “colisões” e a comunicação é interrompida.
- Além disso, muitas pessoas na mesma área sobrecarregam a banda. Assim, a banda fica dividida entre mais usuários e cada um deles tem um “espaço” menor para transmitir dados.
- Como consequência, os aparelhos demoram mais para enviar ou receber dados e as chamadas ficam instáveis, mesmo que o celular esteja com sinal.
- A solução principal é instalar mais antenas, mas o custo para as operadoras é elevado.
- Levantar o celular para o alto até pode ajudar, mas é ineficaz em ambientes com muitas pessoas.
- O ideal é procurar uma rede wi-fi e ter paciência.


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