A Inteligência Artificial está redesenhando a indústria audiovisual no Brasil e no mundo, mudando contratos, produção, distribuição e a forma como pensamos o futuro do talento humano diante da tecnologia. Em 2025 já se observa uma presença cada vez mais marcada de IA em várias etapas da cadeia audiovisual, desde legendagem e efeitos visuais até a geração de vídeos e a gestão de direitos. Com isso surgem questões éticas, regulatórias e criativas que ocupam o debate entre artistas, produtores e legisladores.
Segundo um relatório de 2025 da Haivison, empresa de processamento e distribuição de vídeos, a IA está presente em cerca de 25% das atividades das distribuidoras de conteúdo, um salto considerável frente aos 9% de 2024. A tecnologia atua em áreas diversas: legendagem, efeitos visuais, áudio, dublagem, música, roteiros, edição, geração de vídeo, restauração, avatares virtuais e cataloração de conteúdos. Em campanhas publicitárias já se vê produção inteiramente movida pela IA, sinalizando mudanças rápidas no setor.
Um exemplo prático veio de julho de 2025, quando a Latam Airlines, em parceria com o Google, lançou vídeos para destinos de neve no Chile criados integralmente pelo programa de IA Veo 3. Esse tipo de projeto demonstra como a IA pode ampliar a criatividade e reduzir etapas burocráticas, ao mesmo tempo em que suscita perguntas sobre autoria e remuneração.
Os atores e a IA estão entre os temas centrais do debate. O ator, diretor e produtor Cassio Scapin, conhecido por seu papel em Castelo Rá-Tim-Bum, destaca que hoje todo contrato para trabalhos audiovisuais inclui uma cláusula de uso universal de direito de imagem. Isso, segundo ele, reflete a realidade em que a cara do artista pode ser usada em qualquer lugar, inclusive sem autorização prévia. Escaramuças visuais de vídeos antigos, com o rosto de artistas disponível de forma não prevista, são citadas como exemplos de abuso potencial. Em termos práticos, Scapin aponta a necessidade de regulamentação que proteja artistas e identidades, e não apenas remuneração quando houver uso.
Ator Cassio Scapin
Cassio está envolvido em uma nova peça sobre a relação entre o ser humano e a tecnologia, chamada Distopia Hughie. Trata-se de uma adaptação que reunirá pensadores para debater como a IA afeta, e deve afetar, nossas vidas. O ator alerta: “a nossa memória pode ser apagada pela IA; precisamos refletir sobre como usar a tecnologia a nosso favor”.
Outro lado das conversas é a visão estratégica de bastidores. O roteirista, diretor e produtor executivo Igor Bastos, da Espacial Filmes, afirma que a IA tem ajudado bastante na parte logística, de distribuição e na análise de documentos. Em projeções criativas, a IA já facilita atividades administrativas, abrindo espaço para que criativos foquem naquilo que mais gostam: fazer filmes. O histórico de Bastos inclui o filme “Placa-Mãe”, lançado em 2023, que ganhou reconhecimento internacional; ele comenta que a IA também tem utilidade pedagógica, citando o uso do longa na Suécia para discutir IA nas escolas. O studio Xicoia, de Londres, criou uma atriz inteiramente gerada por IA chamada Tilly Norwood, anunciada em 2025, com planos de projetar o chamado “Tillyverse” até o fim de 2026. A produção também recrutou Mark Whelan, da Amazon Prime Video, para estruturar a estratégia do projeto, que busca ampliar a propriedade intelectual na era da IA.
O medo de uma IA cada vez mais capaz é outra face do debate. Bastos reconhece que muitas pessoas do setor sentem receio do que a IA pode causar aos artistas. Ele ressalta que a IA deve ser vista como uma ferramenta dentro de um processo de produção audiovisual, não como substituto total do talento humano. “A IA é uma ferramenta de software; deve ser integrada ao fluxo de trabalho, não confundida com o que fazemos artisticamente”, defende. Ainda assim, o medo persiste, alimentado pelo desconhecimento e pela sensação de mudança rápida em políticas, mercado de trabalho e definição de direitos.
Produtor executivo Igor Bastos
Um marco regulatório relevante é o projeto de lei n° 2338/2023, que tramita na Câmara desde o final de 2025. O texto busca estabelecer regras para o desenvolvimento e uso responsável de sistemas de IA no Brasil e prevê remuneração por direitos autorais quando modelos de IA são treinados com propriedade intelectual de terceiros. Além disso, o projeto aborda limites de reconhecimento facial e de infraestrutura de segurança. Para Bastos, a legislação é essencial para assegurar aos autores o retorno financeiro quando sua obra é utilizada para treinar IA, assim como já ocorre no mundo da música com o ECAD, que regula a arrecadação e distribuição de direitos autorais. Em síntese, há um consenso de que uma regulação clara protege tanto criadores quanto usuários da tecnologia.
Leia também sobre IA, automação e o impacto no marketing digital e na indústria criativa, temas que dialogam com o avanço da IA na produção audiovisual e no equilíbrio entre inovação e direitos autorais.
Em síntese, a adoção da IA no audiovisual avança com rapidez, trazendo benefícios na edição, distribuição e criação de conteúdos, mas também exige cautela ética, proteção de identidade e um arcabouço jurídico que garanta remuneração justa e uso responsável. O debate entre artistas, produtores e formadores de políticas públicas permanece aberto e relevante para moldar um ecossistema criativo mais seguro, competitivo e inovador.
Como leitor, você ficou com perguntas sobre como a IA pode impactar a produção de conteúdos na sua região, quais direitos devem ser protegidos e que reformas são realmente necessárias? Compartilhe suas opiniões, dúvidas e perspectivas nos comentários para continuarmos esse diálogo sobre o futuro da IA e do audiovisual.

Comentários do Facebook