Por que o PT nunca ganhou as eleições para o governo de São Paulo

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Resumo do texto: desde a sua fundação em 1980, o PT nunca elegeu um governador em São Paulo, embora tenha governado a capital em três ocasiões. A narrativa analisa por que, num estado historicamente marcado por oligarquias e um viés liberal, o partido não conseguiu consolidar poder estadual. Discute o papel da herança conservadora, da ditadura, da redemocratização e da dinâmica entre cidades modernas e interior agrícola para entender o equilíbrio entre forças progressistas e conservadoras. O texto também projeta o cenário para 2026, destacando as tentativas de reconfigurar alianças, o impacto do antipetismo e as possíveis sinalizações de mudança no eleitorado paulista.

A trajetória histórica começa com a década de 1980, quando o PT surge num quadro de transição democrática. Em 1980, a fundação do partido marcaría uma guinada em um estado dominado por redes de poder antigas, com a capital exibindo o seu próprio eixo de resistência. Em 1984, o movimento Diretas Já mobiliza uma massa crítica que reverbera na política paulista. Já na capital, a ascensão de figuras como Luiza Erundina, entre 1989 e 1992, evidencia a possibilidade de gestão petista em grandes centros, ainda que a disputa estadual permaneça desigual frente a uma aliança conservadora histórica.

A partir do fim dos anos 1990, o mapa eleitoral caminha entre o interior conservador, com forte peso de elites locais e do agronegócio, e o centro urbano que se abre a propostas de mercado e inovação. O PT se vê confrontado pelo domínio do PSDB, surgido na hierarquia do PMDB, que consolida uma máquina pública extensa e uma capilaridade eleitoral que atravessa o interior. A lógica do Malufismo também ocupa espaço significativo na capital, com o então político exercendo influência em mandatos que refletem um conservadorismo enraizado.

Segundo a cientista política Daniela Costanzo, o PT cresce com forte presença operária no ABC, atraindo uma classe que até então não tinha histórico sindical ou militante de esquerda. Isso marca uma mudança de eixo: o partido não apenas concilia, mas amplia sua base ao acolher segmentos populares que antes estavam fora do espectro político tradicional de São Paulo.

A ditadura de 1964 interrompe a transmissão de tradições da militância de esquerda e reorganiza a esquerda por meio das universidades públicas, abrindo espaço para uma resistência estudantil que molda o campo político nas décadas seguintes. Essa repressão também favorece uma defasagem crítica na classe trabalhadora, que, segundo os especialistas, influencia a formação de alianças e escolhas eleitorais ao longo dos anos.

A redemocratização coincidiu com uma abertura econômica ao capital neoliberal, um movimento que se instala no interior do estado e transforma as relações entre capital e trabalho. O resultado é um SP que, ao mesmo tempo em que abriga um polo de desenvolvimento, mantém uma base conservadora enraizada nas estruturas da burguesia industrial e do setor de serviços. Essa tensão ajuda a explicar por que o PT, apesar de crescimentos locais, não consegue traduzir vitórias municipais em governo estadual sólido.

Ao longo de 2000, o PT expande sua presença vertical e horizontal, e as vitórias municipais na capital – com Erundina (1989-1992), Marta Suplicy (2001-2004) e Haddad (2013-2016) – ilustram uma capilaridade progressista que não se traduz, porém, em hegemonia estadual. O mapa político paulista revela que as cidades costumam ser mais progressistas, enquanto o interior permanece atrelado a uma visão liberal que favorece o mercado privado, a indústria e o agronegócio.

Segundo Isadora Brizola, o debate estrutural na esquerda não é linear: as tensões entre as regiões urbanas e rurais mostram que o estado funciona como polo de desenvolvimento com atrativos para diferentes propostas. A partir desse enquadramento, a esquerda precisa reconquistar coesão, dialogar com o centro e reconstruir a relação com o eleitorado popular que, ao longo dos anos, tem se deslocado entre as várias camadas sociais.

A esteira eleitoral aponta para 2026: a competitividade do PT segue lenta, com perda de prefeituras recentes e um centrão que avança. Pesquisadores destacam a necessidade de construir bases estáveis no interior para ampliar a influência estadual. Em 2024, por exemplo, o PT adotou tom mais flexível, recusando-se a lançar candidato a prefeito em alguns municípios, o que sinaliza uma readequação de estratégias para mirar o conjunto do estado.

Do lado da direita, a tradição de Maluf e o perfil de PSDB no interior fortalecem uma oposição que permanece robusta, especialmente fora da capital. O PT, por sua vez, mantém foco na capital, onde a história recente aponta para uma gestão com nomes que marcaram o partido no municipal, como Erundina, Marta e Haddad, ainda que a conquista de governabilidade a nível estadual continue como desafio central.

Ao mirar o futuro, os especialistas ressaltam que as mudanças recentes de postura do PT indicam uma tentativa de acomodar alianças com políticos de centro e centro-direita, inclusive com nomes que despertam controvérsia, como Tebet para o Senado, e especulações sobre Marina Silva. A dinâmica de alianças pode redefinir o eixo político paulista, com o interior exigindo acordos que vão além do tradicional divide entre esquerda e direita.

No âmbito da vida pública da cidade, o peso da urbanidade é evidente: regiões com maior diversidade social tendem a adotar pautas mais progressistas, o que altera a correlação de forças entre quem governa a cidade e quem detém o comando no interior. A leitura atual indica que o enfrentamento entre conservadores e progressistas em São Paulo não se resume a disputas localizadas, mas a uma disputa de projeto para o estado e para o país.

Eleições 2026: especialistas veem a competitividade do PT ainda em reconstrução, com perdas em prefeituras e o centrão ganhando espaço. A ausência de uma base sólida no interior, segundo Costanzo, torna difícil o crescimento do PT no conjunto do estado. Contudo, há sinais de mudança: em 2024, o partido recuou de lançar candidato a prefeito em alguns municípios, sinalizando uma estratégia mais flexível ao centrismo. A discussão envolve possíveis alianças com nomes de centro, incluindo Tebet para o Senado, e especulações sobre Marina Silva atuar no estado.

A leitura dos especialistas aponta para uma lógica comum em outras metrópoles do mundo: áreas urbanas tendem a ser mais progressistas, o que altera a relação entre forças políticas. Em São Paulo, a capital tem mostrado uma configuração diferente do interior, criando um “viés liberal” que favorece o investimento privado e a inovação, dificultando a unificação da esquerda em nível estadual.

No panorama da cidade, o histórico de vitórias petistas sugere que o eixo urbano ainda pode sustentar o PT, mesmo diante de adversidades em nível estadual. A presença de Erundina, Marta Suplicy e Haddad como gestoras municipais mostra que o partido tem capacidade de governar grandes centros, mas a transição para o governo do estado exige reframing de alianças, comunicação com uma base popular diversa e estratégias de longo prazo para retomar o impulso político no interior.

Por fim, o debate atual aponta para uma esquerda que precisa repensar sua estratégia de coalização e de afirmação no interior, sem abandonar as pautas de justiça social e inclusão. Isadora Brizola ressalta a necessidade de o eixo progressista se reorganizar, de modo a não apenas reagir às propostas da direita, mas apresentar um projeto claro que dialogue com as demandas reais da população urbana e regional.

Como você vê o cenário de São Paulo para 2026? Quais alianças e propostas parecem mais adequadas para enfrentar os desafios do estado? Compartilhe sua leitura, seus questionamentos e suas expectativas nos comentários abaixo. Sua opinião ajuda a entender as múltiplas vozes que moldam a política paulista.

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