O desfile do Dia da Vitória em Moscou, tradicionalmente marcado pela exibição de blindados e cadetes, ganhará um formato reduzido em 2026. O Ministério da Defesa justificou a mudança pela “situação operacional atual”, com a ausência de veículos de guerra e de cadetes das escolas Suvorov e Nakhimov. Quem até a Praça Vermelha chegar neste ano não verá demonstrações militares habituais, em meio a inquietações sobre segurança e logística.
A decisão também vem acompanhada de avisos de autoridades sobre riscos de ataque, citando a chamada “ameaça terrorista” supostamente originária da Ucrânia. Da mesma forma, várias regiões russas anunciaram ocancelamento de celebrações populares: Nizhniy Novgorod, Saratov, Tchuváquia e a região de Kaluga não terão desfiles; em Voronej, Kursk, Briansk e Belgorod não haverá show de fogos de artifício. Em São Petersburgo, segundo fontes locais, não haverá desfile militar.
Especialistas ouvidos pela DW ressaltam que o recuo não é apenas uma questão de segurança. O historiador Markus Reisner aponta que recentes ataques mostraram que a Ucrânia consegue alcançar alvos bem dentro do território russo, o que aumenta o custo de levar equipamentos ao desfile. A logística necessária para movimentar esses itens também se tornou um entrave, segundo ele, tornando o espetáculo menos viável. Já o militar Jan Matveyev observa que, fora da defesa aérea, as Forças Armadas dispõem de material suficiente, mas o uso combinado de armamentos na frente de batalha reduz a disponibilidade para a paridade festiva.
Para o pesquisador Jan Matveyev, a defesa de Moscou tem conseguido repelir drones, mas não é possível prever o que ocorreria diante de um ataque massivo. Nesse contexto, o Kremlin teme que usar equipamentos no desfile os torne alvos fáceis para ataques, reforçando a necessidade de isolamento do equipamento para não comprometer a guerra em curso. Além disso, ocancelamento parcial do desfile evita atrair atenção desnecessária para o material bélico em meio a uma operação em curso.
O historiador Alexey Uvarov, da Universidade de Bochum, destaca que os desfiles do Dia da Vitória na era pós Soviética seguem uma tradição de exibir poder e de lembrar a memória da guerra. O objetivo, diz ele, é manter a imagem de controle e normalidade, ainda que a situação interna possa estar longe disso. O cientista político Ivan Fomin acrescenta que a memória da guerra e a narrativa de vitória sustentam a legitimidade do regime, moldando a leitura da atual guerra contra a Ucrânia como um reflexo de velhas disputas políticas.
O que se aponta é que o desfile pode não alterar significativamente a popularidade de Vladimir Putin, mas pode sinalizar uma dificuldade do Estado em mostrar normalidade em tempos de conflito. A participação de convidados estrangeiros, outrora uma marca do evento, perde relevância; o foco passa a ser a demonstração de controle. E, para muitos moradores, o que fica é a sensação de que a data continua importante, mesmo em formato contido. Queremos saber: o que você pensa sobre um Dia da Vitória em versão reduzida? Comente como isso impacta a percepção de poder e memória na sua cidade.
