Belo Horizonte — A greve dos professores e trabalhadores da educação da rede municipal de Belo Horizonte não dá sinais de solução após mais de um mês de paralisação e negociações.
O prolongamento do movimento, marcado por um duro impasse entre o Sindicato dos Trabalhadores em Educação da Rede Pública Municipal (Sind-Rede/BH) e a Secretaria Municipal de Educação (SMED), tem gerado consequências diretas e dolorosas para milhares de famílias e, principalmente, para as crianças, que acumulam prejuízo pedagógico a cada dia sem aula.
O que começou como uma mobilização por reajuste salarial, transparência e melhores condições de trabalho se transformou em um confronto que paralisa parcialmente as escolas e coloca pais, mães e filhos no meio do fogo cruzado.
Impacto real nas famílias
Enquanto o conflito político se arrasta, as famílias enfrentam dificuldades concretas. Carolaine Oliveira, de 29 anos, designer de interiores, perdeu o emprego para ficar com a filha. Helena, de 10 anos, estudante do 5º ano do Colégio Marconi, na região Centro-Sul da capital mineira, ficou sem a escola integrada – essencial para a rotina da mãe – após a greve dos servidores terceirizados da Educação, que antecedeu a dos professores.
Sem rede de apoio — o pai mora em Iúna, no Espírito Santo —, Carolaine precisou deixar a menina com uma conhecida e passava o dia no trabalho preocupada, ligando constantemente. A designer estava empolgada e trabalhando duro pois ainda estava em período de experiência, três meses de CLT, mas não conseguiu manter a concentração.
“Eu não conseguia me concentrar no trabalho. Ficava no telefone o tempo todo, preocupada. Estava no período de experiência e minha líder me disse que eu não produzia bem. Fui mandada embora e estou desempregada até hoje”, desabafa Carolaine.
Carolaine diz que entende a reivindicação dos professores, mas acha que é preciso entender também a situação das crianças. “Entendo as reivindicações dos professores, mas o prejuízo para as crianças é muito grande. A escola pública já chega atrasada e agora vai ser ainda mais difícil recuperar esse conteúdo”, lamenta.
Éveline Campos, economista de 45 anos que trabalha em home office com o marido, tenta equilibrar o cuidado com a filha de 6 anos, que está no Infantil 2 na Escola Municipal Hugo Werneck, no Grajaú, região Oeste de BH.
“A gente precisa ajustar a rotina o tempo todo. Eu consigo contornar melhor porque trabalho em casa, mas fico dividida entre dar atenção para ela e cumprir minhas metas. É uma criança pequena, que está em fase de transição para o 1º ano. O aprendizado é uma sequência e essas interrupções quebram todo o ritmo”, explica a mãe.
A economista ainda critica a forma de comunicação da escola. “Eles até avisam, mas na maioria das vezes avisam com um ou dois dias de antecedência, ou até na véspera. Isso dificulta muito o planejamento das famílias.”
A dona de casa, Nathália Cavanelas, 40 anos, mãe de três filhos (5, 10 e 16 anos) – os dois mais novos matriculados na Escola Municipal Marconi – relata desorganização dentro da própria greve.
“O mais estranho é que a escola não para toda de uma vez. Uns dias uma turma, outros dias outra. A gente recebe o aviso no grupo de WhatsApp no dia anterior e tem que se virar. Meus filhos perderam completamente o ritmo de estudo. Isso está criando um clima de falta de compromisso com as famílias”, desabafa.
Nathália frisa que entende o lado dos educadores que precisam reivindicar seus direitos, mas que a greve está se estendendo por muito tempo. “A gente não sabe como que no final vai ficar para repor essas aulas”, concluiu.
O impasse que não se resolve
Os grevistas denunciam o que chamam de “falta de respeito” por parte da gestão do prefeito Álvaro Damião e da secretária de Educação, Natália Araújo. Entre as principais pautas estão:
- Reajuste salarial digno para 2026 (o sindicato contesta o percentual de 4,11% oferecido pela Prefeitura);
- Transparência no quadro real de lotação de professores, já que muitas escolas enfrentam falta de profissionais;
- Revisão do modelo de terceirização do Atendimento Educacional Especializado (AEE), que segundo o Sind-Rede/BH representa uma “privatização disfarçada” ao transferir atribuições pedagógicas para Organizações da Sociedade Civil (OSCs).
A Prefeitura, por sua vez, afirma que já atendeu sete pontos da pauta inicial e que não há mais o que oferecer. A secretária Natália Araújo tem repetido que “não há privatização” — apenas uma mudança de empregadora para profissionais que já eram terceirizados — e condicionou o retorno das negociações ao fim da greve. A gestão também anunciou corte de ponto dos grevistas, o que aumentou a tensão.
Nesta quinta-feira (28), em assembleia realizada em frente à Prefeitura, os trabalhadores decidiram por unanimidade manter a greve. A categoria aprovou um calendário de mobilização com atos públicos, panfletagem e nova assembleia no dia 1º de junho.
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O que vem pela frente
Com a continuidade da greve confirmada, a expectativa é de que as próximas semanas tragam ainda mais pressão sobre a Prefeitura. O Sind-Rede/BH promete intensificar os atos públicos, enquanto a SMED mantém a posição de que só voltará a negociar com os professores dentro das salas de aula.
Para as famílias, o temor é que o calendário escolar seja profundamente comprometido, com reflexos que podem se estender até o período de férias e prejudicar especialmente as crianças mais vulneráveis, que dependem da escola pública tanto para aprendizado quanto para segurança e alimentação.
A greve, que começou como uma luta por direitos, agora também expõe o alto custo social que uma paralisação prolongada impõe à sociedade — especialmente às mães que, como Carolaine, pagam com o próprio emprego a conta de um impasse que ainda não encontrou caminho para a solução.
