Quase quatro décadas após o desastre de Chernobyl, a Zona de Exclusão ao redor da usina revelou-se um refúgio inesperado para a vida selvagem. Um estudo recente mostra que, em várias áreas do norte da Ucrânia, a fauna prospera mais do que em reservas naturais sob manejo humano intensivo, sugerindo que a ausência de pessoas é o principal motor de recuperação, mesmo frente à radiocividade da região.
Entre 2020 e 2021, pesquisadores instalaram armadilhas fotográficas em uma área de 60 mil quilômetros quadrados que inclui a CEZ e áreas próximas. O registro abrangeu 31.200 detecções de 13 espécies distintas, das quais 19.832 ocorreram dentro da Zona de Exclusão de Chernobyl. Os números não representam indivíduos únicos, mas indicam a presença e a frequência de espécies na paisagem.
A diversidade, densidade e frequência dentro da CEZ superaram as observadas em reservas naturais bem geridas, aponta o estudo liderado pela ecóloga ucraniana Svitlana Kudrenko. Em entrevista, Kudrenko disse estar surpresa ao constatar que a diversidade de espécies era menor nas reservas naturais, apesar de sua gestão rigorosa, reforçando o papel da ausência humana na dinâmica ecológica local.
A principal pergunta é se tudo ocorre apesar ou por causa da radiação. A resposta, para muitas espécies de grandes mamíferos, parece ser: a ausência humana importa mais do que a contaminação. Não se tratou apenas de medir radiação, mas de entender o que acontece quando os humanos saem de cena quase por completo.
Entre os achados: cavalos de Przewalski aparecem com frequência dentro da CEZ e quase não fora dela; ursos pardos e cervos-vermelhos também são fotografados com abundância dentro da zona, contrastando com a ausência quase total nas áreas vizinhas. Já a raposa-vermelha não exibiu o mesmo aumento, sugerindo que nem todas as espécies respondem da mesma forma à ausência humana.
O alce aparece como um caso particularmente intrigante: a presença dele diminui quando pesquisadores entram na área para estudar o animal, indicando que a perturbação humana pode reduzir a observação de certas espécies mesmo em um cenário de pouca atividade humana geral. Além disso, a fauna demonstra adaptação: as pererecas-orientais da CEZ são, em média, 43% mais escuras, possivelmente pela melanina que também protege contra danos da radiação.
Dentro do próprio reator destruído, fungos ricos em melanina crescem em paredes expostas à radiação, abrindo hipóteses de que alguns microrganismos possam thriving com a radiação. E problemas imunológicos em lobos-cinzentos da região já foram vinculados a mudanças semelhantes às observadas em pacientes sob radioterapia, mostrando que a radiação não é apenas um fardo sobre a fauna, mas um fator que pode moldar respostas biológicas.
Como conclusão prática, Kudrenko ressalta que áreas protegidas efetivas não são apenas aquelas com regras rígidas, mas grandes, conectadas e com humanos removidos. “Áreas protegidas extensas são vitais para a sobrevivência de espécies raras”, afirmou. Mesmo com o acesso cada vez mais difícil desde a invasão de 2022, o estudo reforça a importância de mosaicos de habitat amplos para a vida selvagem a longo prazo.
E você, o que acha que deveríamos manter para preservar espécies raras em zonas de conflito ou pós-conflito? Compartilhe sua opinião nos comentários e conte suas ideias sobre como equilibrar conservação, ciência e presença humana.
