Bandas de rock desconhecidas têm cachês milionários em São Paulo

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Demétrio Vecchioli

Quatro bandas que só tocam cover e foram criadas recentemente receberam mais de R$ 2,3 milhões em cachês em 15 meses

Quatro bandas formadas entre 2023 e 2024, todas com atuação voltada apenas para covers, passaram a receber cachês elevados pagos pela prefeitura de São Paulo, somando mais de R$ 2,3 milhões em 15 meses. A rede envolve produtoras ligadas a Fabrício Raveli, além de uma agência chamada J7 (anteriormente RVL) e espaços da SP Turismo. A operação tem atraído críticas sobre como a administração municipal define artistas “consagrados” para contratos com dinheiro público e de que forma essas oportunidades são distribuídas.

Entre as atrações, a MotorRockBr surgiu no final de 2024 e, mesmo sem lançamentos próprios, acumulou R$ 828 mil pela prefeitura para 30 apresentações, cobrando R$ 30 mil por show — mais que o triplo do valor padrão de referência para uma banda de cinco músicos. As notas usadas para justificar esses cachês vieram de apresentações em “eventos corporativos” de empresas ligadas ao mesmo grupo da agência que a representa, elevando a discussão sobre critérios de contratação e transparência.

Além da MotorRockBr, outras três bandas associadas ao produtor Fabrício Raveli — Black Tie, Rockfun Legends e Névula — somaram mais de R$ 2,3 milhões em cachês, contratadas pela prefeitura nos últimos 15 meses. O modelo prevê que uma parte dos eventos seja financiada pela Secretaria Municipal de Cultura (SMC) e pela São Paulo Turismo (SPTuris). Um mecanismo recorrente é a exigência de participação das bandas em palestras promovidas por Raveli e em ações da Associação Consciência Cultural, criada por ele em 2024 para estruturar etapas de contratação com base na “consagração” da banda.

A estrutura envolve ainda uma agência chamada AGÊNCIA J7, que sucedeu a RVL, e notas fiscais emitidas por shows em outros empreendimentos de Raveli. Ao lado disso, há relatos de que as bandas recebem cachês acima do mercado para abrir festivais que, segundo apurações, contam com pouca estrutura técnica, e dependem de apontamentos da própria associação para validação de contratos. Em março, por exemplo, uma edição do SP RockNation pagou R$ 30 mil à MotorRockBr, com outras bandas recebendo R$ 6,5 mil e R$ 8,5 mil respectivamente.

Em resposta, a prefeitura afirma que não há influência externa nas escolhas artísticas e que a seleção é baseada em critérios técnicos, culturais e de interesse público, com referência no PNCP (Portal Nacional de Contratações Públicas). O TCM aponta fragilidades na comprovação de notoriedade, na divulgação e na justificativa de preços, além de ausência de provas de divulgação prévia e de efetiva realização dos espetáculos. O processo segue tramitando, com o contraditório e a ampla defesa assegurados.

O leitor, como sempre, é convidado a acompanhar os desdobramentos e a deixar sua opinião sobre o tema nos comentários. Você acha que contratos com cachês altos para bandas de covers, sob critérios de “consagração”, revelam uma prática adequada de uso de dinheiro público ou indicam favorecimento? Compartilhe sua visão.

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