Na Chapada Diamantina, referência em turismo de aventura, guias femininas enfrentam um cenário complexo: silenciamento sistêmico, assédio, boicotes profissionais e descredibilização técnica que tornam invisível o trabalho de quem conduz visitantes por trilhas, travessias e até em ações de combate a incêndios. O relato reúne relatos de mulheres que atuam na ecoturismo e expõe como a dificuldade vai muito além da natureza das trilhas.
Patrícia Ferreira, guia de ecoturismo, aponta regras informais impostas pela sociedade para limitar a presença feminina no setor. Quando supera barreiras, ainda é cobrada a suposta “feminilidade performática”. Há uma preferência evidente por guias homens, sobretudo em travessias longas, sob o pretexto de exigir maior esforço físico. Ao adotar uma postura firme, ela é rotulada de agressiva ou problemática, e o recado é claro: mantenha o silêncio e não exponha críticas.
Essa desvantagem se reflete também na remuneração: segundo Patrícia, é comum ter que provar o dobro da competência para receber metade do pagamento. A percepção de que o poder de conduzir depende de traços físicos reforça a desigualdade e dificulta o reconhecimento profissional que as mulheres merecem no ecoturismo da região.
Joana Vilarinhos, outra guia, confirma essa preferência por lideranças masculinas em grandes grupos e travessias longas, associando a liderança ao tamanho e à força física. Turistas desorientam-se ao descobrir que uma mulher comanda a expedição, como se a competência técnica estivesse diretamente ligada à aparência. Além disso, o silenciamento funciona como moeda de troca, com setores tentando camuflar denúncias de assédio para não afetar o fluxo de negócios.
Joana também revela uma dificuldade adicional: a descredibilização não se restringe ao trekking, alcançando áreas de combate a incêndios. Ela relata que, mesmo em espaços de apoio, há uma resistência velada a reconhecer o conhecimento feminino, tornando a coragem de expor o problema um ato de retaliação e risco para quem denuncia. O peso dessas pressões revela um ambiente que, apesar de belo, opera sob uma lógica machista arraigada.
Izabelle Brandão acrescenta que a ausência de protocolos formais de segurança em territórios remotos força as guias a adotarem defesas individuais. O registro em vídeo é visto como garantia de direitos em casos de desrespeito. O preconceito também se manifesta no cotidiano: há questionamentos sobre a autoridade técnica das mulheres, inclusive no combate a incêndios, e, muitas vezes, associam o conhecimento às redes de proteção masculinas. Mesmo com esse cenário, as guias seguem ocupando caminhos da Chapada, unindo condução de grupos a uma resistência diária ao machismo estrutural que permeia o ecoturismo.
O que vemos é a beleza das trilhas contrastando com a dura realidade de quem precisa abrir espaço no mercado para que nenhuma mulher precise provar o dobro para ter o mesmo reconhecimento. As histórias das guias mostram a força de quem continua firme, mesmo diante de censura, preconceito e estruturas que diferem oportunidades apenas pela condição de gênero. E você, leitor, o que acha que pode ser feito para mudar esse cenário e valorizar as mulheres que ajudam a revelar a verdadeira Chapada Diamantina?
