Opinião: E se não fossem só 50 centavos, senhor gigante adormecido?

Publicado:

compartilhe esse conteúdo

E se não fossem só 50 centavos, senhor gigante adormecido?

Foto: Priscila Melo/ Bahia Notícias

Foi o cidadão quem perdeu a queda de braços entre o sistema de transporte rodoviário e a prefeitura de Salvador. Não que o ente municipal seja o único culpado pelo reajuste da tarifa do último sábado. Uma sucessão de problemas, iniciada ainda em 2013, quando se rediscutiu o modelo de concessão e finalizada com a interminável crise econômica que atinge o país, provocou o disparate entre uma tarifa cara por um serviço de qualidade duvidosa, para não carregar nos adjetivos. Assim, o soteropolitano paga R$ 0,50 a mais por algo que já não era bom.

Chega a ser irônico que a atual concessão de transporte em Salvador tenha sido debatida no contexto do “não são só 20 centavos”, aquele movimento disforme que iludiu o brasileiro médio com a ideia de que “o gigante acordou”. A dose de calmante foi tão grande que o tal gigante está em sono profundo desde então. Salvador, que chegou a ser tomada por multidões desejosas de mudança, agora vive a letargia de que não há nada a fazer – apenas lamentar e pagar caro.

O ex-prefeito ACM Neto, que organizou a bagunça do transporte com aval do Ministério Público da Bahia (MP-BA), já sinalizava que a crise era iminente. O modelo de outorga onerosa sufucou os empresários, que enchiam os bolsos de dinheiro e fingiam não ter responsabilidade com o sistema antes disso. Nunca existiram anjos de candura nesse processo, mas a outorga esteve longe de ser a solução. No máximo fez caixa para a prefeitura, enquanto o transporte continuava ruim. Quando percebeu a insustentabilidade do modelo, a prefeitura recuou, mas aí já era tarde demais. A batata quente sobrou para Bruno Reis, que dia sim e o outro também reclama do principal calo das gestões públicas em todo o Brasil.

Claro que, se a prefeitura errou no passado, os governos federal e estadual erram no presente. Com a iminência de um colapso, o subsídio federal para a gratuidade de idosos não tem uma previsão exata de ser sancionado. No estado, o pedido de redução de alíquota do ICMS para o serviço de transporte gerou uma resposta atravessada do governador Rui Costa, praticamente colocando toda a responsabilidade do provável caos na concessão feita pelo grupo adversário. Por mais que o modelo possa ter sido equivocado, colocar mais lenha numa fogueira não me parece a forma mais sensata de solucionar o problema.

Enquanto isso, o trabalhador soteropolitano – e o empresário local – vai ter que lidar com as consequências de uma população empobrecida, com baixa capacidade de consumir e tendo que pagar mais caro para se deslocar para onde tenha que ir. ?? um combo ruim para uma cidade que há muito esteve entre os melhores lugares do mundo para se viver (se bem que é anacrônico lembrar da Salvador capital do mundo quando o país era uma colônia). 

Saudades de quando havia algum tipo de mobilização para dizer que basta do povo pagar a conta por decisões equivocadas e por excessos políticos daqueles que deveriam olhar para o bem público como uma melhora contínua da vida desse povo. Talvez seja saudade daquilo que não vivi…

Compartilhe esse artigo:

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Governo muda rota e deixa PEC da Segurança em 2º plano; entenda

O governo Lula redesenha as prioridades para 2026, abrindo espaço para agenda regulatória e econômica e deixando a PEC da Segurança Pública em...

Bolsonaro apresenta crises de soluço e alteração na pressão após cirurgia no ombro

O ex-presidente Jair Bolsonaro, submetido a cirurgia para correção de lesões no manguito rotador do ombro direito em 1º de maio, recebeu alta...

Duplex comprado por Careca do INSS ocupa cobertura em área nobre de SP

Resumo: o lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, comprou um duplex de 297 m² no Itaim Bibi, em São...