Caráter personalíssimo faz de Bolsonaro um fora da lei

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A mesquinhez fez Bolsonaro apossar-se do estojo com joias que recebeu de presente da ditadura da Arábia Saudita, e que entrou ilegalmente no Brasil por meio de uma mula, o almirante Bento Albuquerque, ex-ministro das Minas e Energia.

A cobiça fez Bolsonaro empenhar-se mais de um ano para reaver o estojo com joias endereçado pelos sauditas à primeira-dama Michelle, apreendido por agentes da Receita no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. Fez oito tentativas e todas fracassaram.

Faziam parte do estojo de Bolsonaro um relógio, um par de abotoaduras, uma caneta rosa gold, um anel e um masbaha (espécie de rosário islâmico), todos da marca suíça Chopard. O site da loja vende peças similares que, juntas, custam R$ 400 mil.

Um bom presente, mas o de Michelle era mais valioso: um colar, um par de brincos, um relógio e um anel avaliados em R$ 16,5 milhões. Com esse dinheiro, Bolsonaro poderia comprar uma mansão de 1.200 m² em um condomínio em Alphaville, São Paulo.

A mansão tem cinco dormitórios (sendo três suítes), oito vagas de garagem, piscina aquecida, churrasqueira externa coberta, espaço gourmet, adega refrigerada, home theater profissional, poltronas reclináveis, academia, brinquedoteca e sauna. Um paraíso.

Ou então três iates produzidos no Brasil pelo estaleiro Triton Yachts: o Triton 52 HT. A embarcação tem 120 metros quadrados de área. Na proa, assentos retráteis para banhos de sol e relaxamento. Bolsonaro gosta de pescar. Sobrariam R$ 3 milhões.

Ou então 15 motos de luxo Ducati Superleggera V4. Cada uma custa R$ 1,1 milhão, tem 234 cv e pesa 152 quilos. Bolsonaro aprecia motos. Poderia promover motociatas particulares sem ter que dar satisfações a ninguém. Desde que usasse capacete.

Em agosto último, para candidatar-se outra vez, Bolsonaro foi obrigado a revelar o valor do seu patrimônio pessoal: R$ 2,3 milhões. Uma titica, convenhamos, para um político com quase 30 anos de carreira. O lucro com a rachadinha não foi declarado.

Pois bem: somados os patrimônios declarados por ele, Lula, Ciro Gomes, Simone Tebet e os demais candidatos, à exceção de Felipe d’Avila, do Novo, o resultado da conta, ainda assim, ficaria abaixo do valor do presente de Michelle (R$ 16,5 milhões).

É compreensível o esforço feito por Bolsonaro para meter as mãos nas joias da mulher: demitiu o Secretário da Receita que não colaborava; ao substituto, que colaborou, premiou mais tarde com um emprego em Paris; e acionou os militares à sua disposição.

Foi um deles, o tenente-coronel Mauro Cid, que ontem contou que Bolsonaro está com o modesto presente saudita orçado em R$ 400 mil. Guardou-o em um galpão que já foi localizado pela Polícia Federal. Ali, acumulam-se seus pertences.

O advogado Frederick Wassef, que já escondeu Queiroz, diz que os bens em posse de Bolsonaro “são de caráter personalíssimo”, coisas que ele ganhou em viagens. No entendimento do Tribunal de Contas da União, joias não têm caráter pessoal.

Se elas foram dadas de presente a Bolsonaro como chefe de Estado, quem as trouxe teria que informar que eram para o Estado; se foram dadas para a pessoa física, teria de informar da mesma forma. E se tivesse sido uma Ferrari, por exemplo?

O peronista Carlos Menem, presidente da Argentina, ganhou em 1991 uma Ferrari vermelha de presente de um empresário italiano que fazia negócios em seu país. Dizia ser um presente “pessoal”. Lutou na Justiça para ficar com o carro. Acabou perdendo-o.

Em maio de 2022 havia sete modelos de Ferrari à venda no Brasil, com preços variando entre R$ 3,4 milhões e R$ 8,4 milhões. Com a venda das joias de Michelle e um pequeno abatimento, daria para Bolsonaro comprar duas Ferrari do modelo mais caro.

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