Baianos vendem colmeias de abelhas por até R$ 700 em sites da internet

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É possível fazer absolutamente tudo pela internet, inclusive, comprar colmeias. Criadores de abelhas-sem-ferrão anunciam através de sites de comércio eletrônico a venda de enxames no interior da Bahia. Os valores variam entre R$ 150 até R$ 700, com direito a parcelamento em até 12 vezes e transporte particular, sem uso de empresas terceirizadas para envio do produto. 

“Não tenho Jataí para vender no momento, só a Mandaçaia a R$450 e a Mirim-Guaçu a R$ 350. O frete deve ficar em torno de R$ 50 reais até Jeremoabo [município no nordeste do estado]”, negocia um vendedor em comentários abertos no Mercado Livre. 

Registrado em Cipó, a 130 km de Jeremoabo, o perfil nega solicitações de frete pelo Correios e diz ter os próprios portadores para transporte da carga. Pela plataforma, os vendedores ainda conseguem oferecer parcelamento de até 12x e pagamento por cartão de débito, pix, boleto bancário e em espécie. 

O preço é tabelado conforme a quantidade de produção do mel e raridade da espécie, por isso sobe para algumas espécies e cai para outras, explica Favízia Freitas, professora da Ufba e taxonomista de insetos com foco em abelhas. Ela exemplifica que, enquanto a Mandaçaia é uma abelha maior e produz mais mel, a Jataí produz menos mel e é facilmente encontrada na natureza, por isso haverá disparidade entre valores de compra. 

O arquiteto João Almeida, 33, vive em uma chácara em Conceição de Coité e caiu de paraquedas no mundo da meliponicultura, a criação de abelhas nativas e sem ferrão. Isso porque foi o vizinho de João que comprou abelhas Jataí, mas parte delas formou uma nova colmeia no forno à lenha do arquiteto. Ele vende a R$ 350. 

“O pessoal chegou para fazer churrasco e percebeu movimentação ali. Quando abriu já estava a colmeia formada. Acabou não tendo mais churrasco”, brinca. Ao ser perguntado sobre como estipulou o valor da venda do enxame, ele reponde com sinceridade: “Eu chutei. O vizinho comprou uma por R$ 600 reais, mas a dele veio em um pedaço de tronco. Desde quando fiz o anúncio [na OLX] apareceram vários interessados. Mas todos da região de Salvador. Não tinha como eu levar”, conta. 

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João encomendou uma caixa de abelhas para abrigar a colmeia enquanto não a vende (Foto: Acervo Pessoal)

Para o professor de apicultura no IF Baiano, Alex Aguiar, a comercialização online é interessante para introdução de espécies. “[Assim, criadores] podem estar adquirindo enxame com criadores de até mil km de distância. Em contrapartida, tem como trazer doenças desses locais. Culturas vêm junto com pragas, doenças em plantas e animais. Corre esse risco”, alerta. 

Já Favízia acredita que, justamente pelo risco de infestação, as abelhas não devem ser vendidas pela internet. A sugestão é não comprar de fora do estado para evitar desequilíbrio e verificar se o vendedor é credenciado. 

Procurada pela reportagem, a OLX informou que já retirou os anúncios identificados e todas as comercializações devem estar de acordo com os Termos e Condições de Uso da plataforma, em linha com a legislação aplicável e as regras definidas pelo Ibama.

A reportagem entrou em contato com o Ibama para saber quais as recomendações oficiais do órgão. Coordenador da área de monitoramento do uso da fauna e recursos pesqueiros do Ibama, Halisson Barreto explica que hoje compete aos órgãos estaduais regular a gestão de empreendimentos sobre fauna. De todo modo, esclarece que a criação da abelha silvestre nativa, como citadas na matéria, depende de autorização do órgão estadual, e o empreendimento precisa estar cadastrado no SisFauna.

O Instituto Do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) não respondeu os questionamentos acerca das medidas necessárias para comercialização de abelhas. A reportagem ainda procurou o Mercado Livre, uma das plataformas nas quais os anúncios foram realizados a fim de saber quais as políticas das empresas para venda específica destes insetos, porém, não recebeu resposta.

Importância

As abelhas são essenciais para a preservação da natureza e atividade econômica. A Associação Brasileira de Estudo das Abelhas (A.B.E.L.H.A.) recorda que em 2009, o Brasil chegou a ocupar o quarto lugar no ranking dos maiores exportadores de mel. Após período de seca, em 2018, o país alcançou um valor de produção de R$ 502,8 milhões segundo o IBGE, alcançando a 11º posição entre os maiores produtores de mel.

Especialistas destacam que os insetos também são polinizadores, assim auxiliam na reprodução e conservação ambiental. Mesmo em cidades grandes eles são necessárias para áreas verdes que precisam ser mantidas.  
 

Especialistas alertam sobre criação e compra

A especialista em meliponicultura e doutora em Ciências Agrárias, Genna Sousa, ainda ressalta que para vender abelhas-sem-ferrão, o translado deve estar acompanhado da Guia de Trânsito Animal. 

“Quem não fizer dessa forma, está na irregularidade. As abelhas devem ser transportadas dentro das normas estabelecidas nos órgãos dos Estados e Nacional. Esses devem fazer as vistorias necessárias nas colônias antes do transporte. Enviar pelos Correios, é muito arriscado para as abelhas”, afirma. 

Além do credenciamento legal, é preciso ter cuidado no transporte das abelhas. A orientação de Alex Aguiar é, antes de embarcar a colmeia no veículo, colocar uma tampa apropriada, a qual possua tela para impedir a fuga dos insetos e, ao mesmo tempo, possibilitar a ventilação da colmeia. O transporte deve ser noturno, devido às condições de temperatura e a quantidade deve ser conforme o limite de carga do transporte. Já a criação é mais fácil por não terem o ferrão atrofiado. 

“Abelhas-rainhas são enviadas via Sedex, tem uma embalagem própria, bem preparada. Onde se coloca a abelha-rainha em gaiola especial com operárias que vão fornecer alimentos para ela. [Mas] quando é transporte com muitas colmeias existe risco. Já vi carro tombado com colmeias e aí não tem jeito abre mesmo, detalha. 

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro 
 

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