Primeira biografia de Alceu conta história da música Anunciação

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O jornalista carioca Julio Moura, 53, começou a prestar atenção às músicas de Alceu Valença quando tinha em torno de 15 anos de idade, na época do primeiro Rock In Rio, em 1985. Juntou o dinheiro da mesada, diminuiu os lanches na escola, recorreu às tias e conseguiu ingresso para quatro noites do festival. Poderia finalmente ver AC/DC, Ozzy, Iron Maiden e outros ídolos internacionais seus. De música brasileira, não queria nem saber. Mas eis que, num daqueles dias chuvosos, a Cidade do Rock ainda vazia, entrou um cara no palco que lhe chamou a atenção, cantando algo que nem de longe lembrava o heavy metal: Alceu Valença, fiel seguidor das tradições nordestinas e de sua terra, Pernambuco. Foi o bastante para encantar o jornalista, que, logo depois, juntou uma parte da mesada para comprar um disco de Alceu. Agora, passados quase 40 anos, Julio lança Pela Ruas que Andei – Uma Biografia de Alceu Valença, que chega às livrarias nos próximos dias e já está em pré-venda no site da editora Cepe, por R$ 70. E Julio não é só fã do músico: ele trabalha desde 2009 como assessor de imprensa de Alceu e fala quase diariamente com o cantor e compositor de 76 anos. Jornalista especializado em música, Julio sempre quis escrever uma biografia de cantores ou compositores. Mas alguns daqueles sobre quem queria escrever, como Mário Reis, já haviam tido sua vida registrada em livro. Pensou em outros personagens, mas nada o entusiasmava verdadeiramente. Foi só quando começou a trabalhar com Alceu que deu o “estalo”, como ele mesmo diz. Desde os primeiros trabalhos com Alceu, começou então a guardar recortes de jornais e entrevistas do músico, já pensando na biografia que escreveria. O projeto começou a se concretizar em 2019, quando o Itaú Cultural, em São Paulo, promoveu uma ocupação artística sobre o artista. Apresentou a ideia a Alceu, que aprovou e finalmente começou a concretizar a biografia. Durante a pandemia, em razão do isolamento, pôde acelerar o texto e a pesquisa. Teve também o apoio de uma pesquisadora, Patrícia Pamplona, que levantou material sobre Alceu publicado desde a década de 1970. Alceu “cancelado” Embora seja uma biografia realizada por alguém muito próximo do biografado, Julio garante que não evitou assuntos que poderiam deixar Alceu desconfortável, como o apoio que o artista deu ao então candidato ao governo de seu estado, Joaquim Francisco, candidato pelo PFL. Aquilo despertou a ira da militância de esquerda, com a qual Alceu era identificado e o cantor por um tempo foi “cancelado” pelos fãs por não ter apoiado Jarbas Vasconcelos.  Embora tenha tido muitas e longas conversas com Alceu para o livro, Julio diz que parte da biografia se baseia na convivência com o artista. Teve conversas informais com artistas ligados ao biografado, como Elba Ramalho e Geraldo Azevedo. “Nestes 15 anos [de trabalho com o músico], convivi muito com ele e muita coisa do livro vem da vivência, por mais que eu tenha mantido distanciamento”, explica o autor. Julio optou por uma narrativa simples do ponto de vista estrutural, em ordem cronológica: o livro começa falando da família de Alceu e retrata a infância, adolescência, o início da carreira, o auge nos anos 80 e por aí vai. E chega aos dias atuais, incluindo a vitória no Grammy Latino, pelo álbum Senhora Estrada. Para os fãs, tem boas histórias de bastidores, incluindo um “making of” de Anunciação, “possivelmente a mais emblemática” do artista, segundo o cantor. A história está no livro e não vamos dar spoilers aqui. E é muito interessante ver como nasceu tão despretensiosamente uma das mais lindas canções da música brasileira da era pós-Bossa, que virou até hino da torcida do clube paraguaio Cerro Porteño. E, embora tivesse tudo para ser uma insossa biografia chapa-branca, em razão da proximidade entre biografado e autor, o livro se segura bem graças ao ótimo estilo de escrita de Julio e também ao rico trabalho de pesquisa, especialmente fotográfico, que enriquece bastante a biografia.

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