Reino Unido: população defende abrigos de imigrantes contra extremistas
Milhares de cidadãos saíram às ruas em diferentes cidades do Reino Unido nesta quarta-feira (7/8) para formar um escudo humano e proteger abrigos de imigrantes de manifestações da ultradireita. A ação foi organizada nove dias após o trágico assassinato de três crianças em Southport, no norte da Inglaterra, desencadeando uma série de protestos anti-imigrantes e contra muçulmanos.
Portando cartazes com mensagens como “refugiados são bem-vindos” e “diga não ao racismo, opte pela terapia”, os participantes buscavam mostrar solidariedade contra os distúrbios que têm ocorrido no Reino Unido desde o incidente com as crianças, em 29 de julho.
Em Londres, os contra protestos foram realizados no mesmo dia em que grupos de ultradireita planejavam diversas manifestações em público na Inglaterra e no País de Gales, concentrando-se em quatro bairros: North Finchley, Walthamstow, Hackney e Harrow. Outras cidades como Brighton, Bristol, Liverpool, Newcastle, Birmingham e Southampton também realizaram atos. Antes dos protestos, estabelecimentos fecharam as portas, aulas foram canceladas e escritórios de advocacia que defendem imigrantes encerraram as atividades devido ao temor da violência crescente.
Em Walthamstow, os manifestantes carregavam placas com frases como “Enfrente o racismo” e “racistas não são bem-vindos aqui”. Os protestos também contaram com a presença de apoiadores da causa palestina.
“Sendo moradora deste bairro, não queremos essas pessoas [manifestantes de ultradireita] em nossas ruas, elas não nos representam”, expressou Sara Tresilian, de 58 anos, ao se unir à multidão em Walthamstow na quarta à noite.
Até então, manifestações anti-imigrantes e contra muçulmanos já tinham ocorrido em várias cidades como Hartlepool, Aldershot, Londres, Sunderland, Hull, Manchester, Leeds, Bolton, Liverpool, Middlesbrough e Darlington. Cerca de seis mil policiais, um terço da equipe da Polícia Metropolitana de Londres (MET), foi mobilizado para lidar com os protestos, que acabaram sendo mais numerosos do que o esperado pela ultradireita.
No final do dia, o comissário da MET Mark Rowley afirmou à agência de notícias Reuters que os eventos transcorreram de maneira “muito pacífica”, com apenas alguns incidentes isolados. Em Croydon, sul da Inglaterra, houve relatos de pessoas arremessando garrafas, enquanto lixeiras foram incendiadas em Belfast, na Irlanda do Norte. “Acredito que a demonstração de força da polícia e, francamente, a união das comunidades, juntas, superaram os desafios que enfrentamos”, declarou Rowley aos jornalistas.Autoridades, como o prefeito de Londres, Sadiq Khan, expressaram repúdio às ações da ultradireita, além dos contraprotestos nas ruas. “Aos que se manifestaram pacificamente para mostrar que Londres está unida contra o racismo e a islamofobia: obrigado”, afirmou Khan em uma publicação na rede social X.
A Metropolitan Police Service (MET) divulgou em comunicado oficial que está analisando imagens de vídeos e redes sociais para identificar os participantes dos protestos de ultradireita.
Os protestos da ultradireita ganharam força no Reino Unido após um incidente em que um suspeito de esfaquear três crianças foi erroneamente identificado como um imigrante muçulmano. Na verdade, o jovem de 17 anos nasceu em Cardiff, no País de Gales, e é filho de imigrantes de Ruanda.
Os manifestantes atacaram mesquitas, hotéis que abrigavam solicitantes de asilo, prédios públicos e delegacias. Listas com escritórios de advocacia de imigração e agências de aconselhamento a imigrantes foram compartilhadas em grupos de bate-papo na internet como possíveis alvos de novos ataques.
Indivíduos como Stephen Christopher Yaxley-Lennon, conhecido como Tommy Robinson e ex-membro do Partido Nacional Britânico (BNP), têm incentivado os protestos. Robinson é cofundador da English Defence League (EDL), um grupo islamofóbico e anti-imigração, e liderou um ataque a uma mesquita em Southport recentemente.
O influenciador britânico-americano de ultradireita, Andrew Tate, preso na Romênia por suspeita de tráfico e estupro, também difundiu boatos sobre o suspeito das crianças assassinadas, estimulando os protestos. Em uma publicação na rede X, Tate compartilhou uma imagem de um homem negro com a legenda “Típico homem de Cardiff”.
Hope not Hate declarou em comunicado que a ultradireita tem agido com base em discursos contrários a imigrantes e muçulmanos. A onda de ataques foi classificada como “a pior violência da ultradireita no Reino Unido desde a Segunda Guerra Mundial”.
Durante as manifestações, cerca de 400 pessoas foram detidas e pelo menos três foram condenadas. Um homem de 58 anos de Southport, Merseyside, foi condenado a três anos de prisão após se declarar culpado de desordem violenta e agressão a um funcionário de emergência durante os protestos em 30 de julho. Dois outros homens, de 29 e 40 anos, receberam sentenças de 30 meses e 20 meses, respectivamente, por participação nos protestos em Liverpool.
As vítimas, Elsie Dot Stancombe, de sete anos, Alice Dasilva Aguiar, de nove anos, e Bebe King, de seis anos, participavam de uma aula em uma colônia de férias com tema da cantora Taylor Swift.
