Ouro Preto: o que se sabe sobre casa com desenhos feitos por escravos

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Belo Horizonte – A casa na Rua Conde de Bobadela, antiga Direita, nº 134, em Ouro Preto, no coração de Minas Gerais, revelou durante uma reforma um tesouro arqueológico inédito. Grafismos e pinturas ligadas à cultura africana e ao período da escravidão ficaram escondidos por quase 300 anos e, hoje, podem ganhar reconhecimento oficial como sítio arqueológico.

A história começou em 2017, quando a ideia era reformar o imóvel para abrir um restaurante. Dois anos depois, trabalhadores da obra encontraram desenhos no porão, um espaço de difícil acesso que só recebeu energia elétrica na década de 1980. Esses traços resistiram ao tempo e despertaram o interesse de especialistas.

O pesquisador Leonardo Klink, arqueólogo da UFMG, passou a estudar o local no âmbito de um doutorado. Ele identificou cerca de 26 desenhos, em formatos distintos: traços gravados, grafites com pigmentos pretos e vermelhos e técnicas mistas. Entre as figuras estão animais, aves, embarcações, motivos geométricos e até uma possível joaninha.

Klink explica que muitos símbolos remetem a tradições africanas, especialmente da África Ocidental. Embora muitos desenhos estejam desgastados, iluminação especial e processamento digital ajudam a revelá-los. Em uma das peças, há cenas com pessoas em um pátio cercado por muros, com referências a tipos de construção da região, além de uma máscara em grafite ligada a tradições da África Centro-Ocidental.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) confirmou o registro oficial do local como sítio arqueológico, incluído no SICG com a denominação “Inscrições Afrodiaspóricas”. O órgão ressalta que a preservação vai além do material: envolve contar narrativas da história brasileira e reconhecer o papel central da população negra na formação de Minas Gerais, contribuindo para educação, identidade e reparação histórica.

Philipe Passos, o atual proprietário, defende que o espaço deve receber visitas. “É uma obrigação com o passado e com o futuro”, afirma. Hoje, a casa está fechada e passa por adaptações, o que deve adiar a visitação para o próximo ano. O COPMAF, Comitê Permanente para a Preservação do Patrimônio Cultural de Matriz Africana, é citado pelo Iphan como avanço no reconhecimento dessas tradições.

O projeto busca transformar o sobrado em referência cultural e educativa, valorizando a memória de africanos e seus descendentes que viveram no interior de Ouro Preto. Estudos sob supervisão do Iphan devem orientar a conservação das inscrições e a futura visitação, conectando passado e futuro da cidade.

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