Relatórios da Polícia Federal revelam uma relação entre o líder do Comando Vermelho, Gabriel Dias de Oliveira, conhecido como “Índio do Lixão”, e assessores de autoridades públicas no Rio de Janeiro. Entre maio e agosto de 2025, mensagens indicam encontros, favores e tentativas de nomeação com o círculo de aliados do empresário Gutemberg Fonseca, ex-secretário de Defesa do Consumidor. O caso expõe possíveis contatos entre crime organizado e figuras da cidade, em um momento de disputas por cargos públicos.
A PF aponta Luiz Eduardo Cunha Gonçalves, o “Dudu”, assessor do ex-deputado TH Joias, como intermediário das conversas com o grupo. O primeiro contato ocorreu em 13 de maio de 2025, com a troca de mensagens de insatisfação pela ausência de Gutemberg Fonseca. No dia seguinte, Índio e Dudu conversaram por 39 minutos, e o traficante orientou o assessor a consultar Gutemberg sobre sua atitude para resolver um problema rapidamente.
Em junho de 2025, o traficante enviou a Dudu um vídeo institucional da Secretaria de Defesa do Consumidor sobre uma reunião com o Procon e a concessionária Enel, dizendo que o mérito vem de ações como aquela. O assessor repassou o material para “Menezes” (Marcos José Menezes, ex-servidor municipal e do Procon), sugerindo que a reunião com o traficante seria positiva. A PF destaca o papel de Menezes como elo para tentativas de nomeação no Procon estadual, com Dudu atuando como facilitador.
Em julho de 2025, Índio cobrou o andamento de uma nomeação: “Pergunta da nomeação. Se ele não for, eu vou em outro caminho já certo”. Pouco depois, Dudu pediu os dados de identificação civil do criminoso para agilizar o processo. Diante de dificuldades, Índio sugeriu que o próprio secretariado intercedesse, e, em agosto, que Gutemberg Fonseca interviesse diretamente. Dias depois, Dudu enviou o endereço da sede do Procon para uma reunião com Menezes e a presença do secretário; a PF não confirmou se o encontro ocorreu, devido à falta de retorno de Menezes.
A investigação também aponta que o chefe do Comando Vermelho mantinha ligação direta com o advogado Alessandro Pitombeira Carracena, ex-secretário de Esportes e ex-subsecretário de Defesa do Consumidor. Carracena foi preso em setembro de 2025 por suposta prática de favorecimento para atender demandas da facção. Mesmo afastado, ele manteve contatos com Índio do Lixão; em maio de 2025, após a primeira reunião, Índio afirmou ter se reunido com Fonseca, que teria elogiado Carracena. Em junho, o traficante enviou o mesmo vídeo da reunião a Carracena, que respondeu: “Muito é por causa de você”.
De acordo com Fonseca, ele nega qualquer relação com o Índio do Lixão ou com as reuniões mencionadas. O ex-secretário afirma que, na função pública, conversa com várias pessoas e que, à época, não havia mandados de prisão pendentes contra o investigado. Fonseca também confirmou manter contatos com Menezes, ressaltando que sua atuação sempre foi voltada ao combate ao crime organizado e à defesa das instituições de segurança pública.

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