Justiça restaurativa ganha espaço em Canudos com voz à população. Em entrevista ao JusPod, o podcast jurídico do Bahia Notícias, o juiz federal João Paulo Pirôpo explica por que ouvir os moradores é essencial nessa ação, que tramita na Justiça Federal e vai além de indenizações, buscando caminhos de reparação histórica por meio de narrativas, depoimentos e participação de autoridades públicas.
A primeira audiência, realizada na Praça da Justiça e Cidadania, revelou o abandono estruturante que persiste há gerações. Carretas móveis ofereceram serviços básicos: emissão de documentos (identidade, título de eleitor, CPF) e atendimento de saúde. O juiz destacou a ausência de agência bancária local e de fórum da Justiça Estadual, o que força moradores a viajar para cidades vizinhas, citando Monte Santo como referência.
Um ponto central é a titularidade das terras. Sem regularização, agricultores que plantam banana, por exemplo, não conseguem acessar financiamentos públicos ou privados, alimentando um círculo vicioso de dificuldade para investir na produção. A situação fundiária é objeto de um procedimento específico no Ministério Público Federal, segundo Pirôpo.
“Canudos realmente parou no tempo”, lamentou o magistrado, comparando a região a lugares que preservam memórias históricas no exterior. A restauração institucional não busca apenas reconhecer a dor, mas estimular condições reais de vida para a população, articulando ações públicas que promovam mudança concreta.
A cooperação entre o Tribunal Regional Federal da 1ª Região e o Tribunal de Justiça da Bahia é inédita. Um termo de cooperação foi firmado para trabalhar conjuntamente em ações de justiça restaurativa. O objetivo é restaurar, ao menos parte, do que se perdeu em mais de 100 anos de injustiça.
A fase conciliatória representa um esforço do Judiciário para ouvir, reconhecer e, quem sabe, iniciar um caminho de reparação. A entrevista está disponível na íntegra no canal do YouTube do Bahia Notícias, com Karina Calixto e Matheus Biset, além de convidados como Ludmilla Vieira de Souza Mota e o procurador da República, destacando o olhar da região sobre a história de Canudos.
