Belo Horizonte, 2017: a assistente social Delma Soares, presidente do projeto social ComPaixão, acolhe Amanda Maria Souza de Oliveira, então registrada como 12 anos, uma adolescente que vivia nas ruas. A história expõe vulnerabilidade, saúde mental e uma rede de desafios que vão muito além de um mero caso policial, revelando como esse tipo de situação ainda merece atenção séria no Brasil.

Durante esse período, Delma já desconfiava de que Amanda pudesse ser mais velha do que dizia, mas acreditava que a jovem vivia, de fato, uma situação de vulnerabilidade. Em relatos da voluntária, Amanda chegava com ferimentos causados por agulhas e pedaços de arame, chorava muito e dizia ter sido exposta a situações de violência, incluindo exploração sexual.
“A Amanda tinha ferimentos causados por agulhas e pedaços de arame. No início, ela chorava muito. Chegou com o corpo cheio de feridas, umas ‘perebinhas’ que dizia terem sido causadas por agulhas”.
Segundo o relato da adolescente à assistente social, os ferimentos teriam ocorrido em um ambiente em que a jovem dizia ter sido explorada sexualmente, vendida pelos pais, com o pai sendo apontado como um dos primeiros “clientes”. Delma alerta: casos assim são mais comuns do que se imagina e refletem uma grave condição de saúde mental, não apenas um episódio isolado de crime.
Na visão da diretora, o importante é não desconsiderar a denúncia. “Se ela cometeu crimes, tem, sim, que ser responsabilizada. E estar com as autoridades de segurança. Mas, para mim, isso tudo mostra uma situação de saúde mental. É um caso muito sério, mas as pessoas tratam como piada”, lamenta.
A própria Delma afirma que não se arrepende do atendimento prestado e promete manter a postura de acreditar nas denúncias que chegam à ONG, mesmo diante de críticas. “Se eu passar a julgar toda mulher que chega pedindo ajuda, quem eu vou atender?”, resume a diretora.

Em 25 de outubro de 2017, Delma levou Amanda para avaliação com psicólogos do Ministério Público de Minas Gerais. O parecer apontou estagio de saúde fragilizada e recomendou atendimento especializado na rede de saúde mental infantil e juvenil, com encaminhamento para o Centro de Referência em Saúde Mental Infanto-Juvenil (Cersami) Nordeste. O município confirmou atendimento na rede, embora mantenha sigilo sobre prontuários.
Apesar da reserva médica, Amanda acabou aceitando ir ao Hospital Odilon Behrens, onde radiografias revelaram objetos espalhados pelo corpo. Em registros obtidos pelo Metrópoles, imagens de raio-X confirmam o relato da jovem submetida a uma sequência de episódios que envolvem medo, desinformação e busca por proteção.
A linguagem de Amanda era infantil em muitos aspectos, com cartas e desenhos recebidos pela diretora. Em mensagens, ela falava de carinho, de ser considerada heroína e de festas que não existiam com a mesma pureza de uma criança de sua idade. Dentro dos abrigos, Amanda ajudava nas tarefas e, em alguns momentos, viajava pelo país em caronas — ações que hoje, segundo Delma, parecem tentativas de fuga.
A história não parou por BH. Amanda seguiu em abrigos de outros municípios, enfrentando situações de credibilidade duvidosa: em 2022, foi presa em Três Corações após uma conselheira tutelar questionar sua veracidade; em 2024, outra prisão ocorreu em Montes Claros. Ela estendeu atos ilícitos a pelo menos cinco estados, incluindo Minas Gerais e Santa Catarina, com condenações por falsidade ideológica e estelionato, ainda sem cumprir todas as penas.
Este caso evidencia a complexidade de lidar com vulnerabilidade, saúde mental e violência sexual infantil. O desafio permanece: como acolher sem julgar, proteger sem abandonar, e encaminhar para tratamento quando necessário? Deixe sua opinião nos comentários e compartilhe como você acha que a sociedade pode lidar melhor com situações tão difíceis.
