Um organograma obtido pelo Metrópoles revela que a Autopass, empresa responsável pelo Cartão Top, está no centro de uma teia de holdings ligadas às maiores famílias do transporte de São Paulo. O cenário levanta perguntas sobre a transparência na bilhetagem que conecta metrô, trem e ônibus da região metropolitana.
O controle da Autopass está concentrado na cadeia de fundos liderada pelo Mondo FIP (Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia), que detém 95% da companhia. A maior fatia pertence ao grupo Setti Braga, controlador da Next Mobilidade, por meio de holdings que somam 38,1% das participações do fundo.
Entre os acionistas relevantes estão a família Nogueira (12%), ligada à Viação Miracatiba, a família Saraiva (11,4%) — controladora das vias Urubupungá e Caieiras —, a família Felício (10,6%) e a família Dinis dos Santos (6,3%), ligadas a empresas de vias como Arujá, Vila Galvão e Pirajuçara. Ao todo, 29 pessoas físicas aparecem na composição das fundadoras e da cadeia de controle.
Antes de Autopass, a Abasp foi criada e reúne consórcios de Metrô, CPTM e operadores de ônibus. A interdependência entre Abasp e Autopass, críticas à independência do processo e a gestão de contratos com forte influência privada abrem perguntas sobre o modelo de governança, já alvo de questionamentos do TCE.
O Cartão Top substituiu o Cartão Bom, administrado pela Autopass desde 2009. Em 2019, a escolha da Autopass pela Abasp provocou críticas pela falta de transparência, ampliadas pela constatação de que 14 dos 24 fundadores da Abasp mantinham vínculos com a Autopass. Em março, a Autopass divulgou captação de 185 milhões de reais garantida pela remuneração da bilhetagem.
O Tribunal de Contas do Estado (TCE) investiga as contas de 2019 a 2022, após apontar, em julho, que o governo não apresentou justificativa suficiente para dispensar a licitação da operadora. O Ministério Público, a Procuradoria da Fazenda e o relator Maxwell Vieira acompanham o caso, com expectativa sobre o voto.
Às críticas, o governo estadual, por meio da Secretaria de Parcerias em Investimentos, sustenta que a bilhetagem é obrigação contratual das concessionárias e que a governança envolve secretarias e reguladores. A Abasp afirma ter seguido seu regulamento interno, com aprovação unânime do Conselho de Administração, e que já houve investigação do Ministério Público Estadual, a qual foi arquivada por entender que o ato seguiu a lei. A Autopass afirma atuar apenas como prestadora de tecnologia, e que o FIP, regulado pela CVM, separa propriedade de capital da gestão, impedindo controle direto.
Além disso, cresce a pauta de mudanças em nível federal: o projeto de lei em tramitação pretende que a bilhetagem seja operada pelo setor público ou por terceiros independentes, em linha com maior transparência e dados abertos. Dados de arrecadação de cidades costumam ser apresentados publicamente por órgãos municipais, fomentando debates sobre modelos de gestão.
E você, o que pensa sobre essa rede de laços entre empresas de transporte e a gestão da bilhetagem? Compartilhe sua opinião nos comentários e conte como você enxerga a transparência nesse tema que afeta o dia a dia de milhões de passageiros.
