Maxakali denunciam fome, água imprópria e falta de atendimento; autoridades prometem ações
Belo Horizonte — Representantes do Judiciário, do Ministério Público Federal, da Defensoria Pública, do Tribunal de Contas de Minas Gerais (TCE-MG) e outros órgãos participaram de uma visita institucional às aldeias Maxakali no Vale do Mucuri, no dia 15 de julho. O objetivo foi ouvir relatos de fome, desnutrição infantil, água não tratada, dificuldades de transporte e fragilidade no acesso à saúde, com a presença de um Comitê que reúne órgãos do Judiciário, MPF, Defensoria e fiscalização para encaminhar respostas públicas permanentes.
As lideranças indígenas, entre elas Sueli Maxakali, professora, relataram uma regressão histórica na qualidade de vida: o território já foi fértil, mas hoje falta apoio à agricultura tradicional, o que agrava a alimentação das famílias. “No passado tinha roça, arroz, feijão, mandioca… hoje nós não temos mais nada de roça”, desabafou Sueli. O grupo enfatizou que sem incentivo à produção agrícola tradicional a alimentação fica comprometida.

Além da alimentação, as lideranças destacaram dificuldades de acesso à saúde e a demora no atendimento. O pajé Joviel Maxakali lembrou que, no passado, o enfermeiro ia até a casa do doente; hoje, segundo ele, esse contato quase não ocorre mais, o que agrava a situação de saúde nas comunidades.
A professora Sueli associou a crise à destruição ambiental no Vale do Mucuri, afirmando que a Mata Atlântica foi devastada e a região passou a enfrentar impactos semelhantes aos observados em outras áreas de grande degradação ambiental. “O Vale do Mucuri era Mata Atlântica; agora a ameaça que vemos na Amazônia chegou ao nosso território”, afirmou.
Marilton Maxakali, líder da Aldeia Pradinho, denunciou a má qualidade da água: “A água chega amarelada, com ferro. Tomamos essa água e ficamos com dor de barriga; todo Maxakali sofre com isso.” Ele criticou também a ausência de coleta de lixo e o saneamento básico, apontando que a água usada para preparo de alimentação de crianças pode representar risco à saúde.
Outro tema destacado foi a crise de saúde mental entre jovens. Marilton disse que há casos de depressão entre adolescentes e pediu atenção especial à saúde mental, incluindo presença de psiquiatra e apoio psicológico. Em uma revelação dolorosa, ele afirmou: “Dois dos meus irmãos tiraram a própria vida.” O pajé Isael ressaltou a necessidade de projetos que ocupem os jovens, como mutirões, viveiros e atividades que fortaleçam a comunidade.

Autoridades e responsabilidades
Durval Angelo Andrade, presidente do TCE-MG, reconheceu a dívida histórica do Estado com os Maxakali e afirmou que as responsabilidades envolvem União, Estado e municípios. “Não há mais espaço para justificativas: ver crianças morrendo de desnutrição e fome, em um estado tão rico, é um desleixo que agride a nossa consciência”, afirmou. O juiz do TJMG, Matheus Moura Matias Miranda, informou que representantes de três poderes e esferas de governo foram acionados para construir respostas conjuntas e que auditorias serão realizadas para acompanhar o cumprimento das medidas.
Entre os principais problemas apontados estão a falta de incentivo à produção agrícola, escassez de medicamentos, ausência de transporte para hospitais e bancos, água de baixa qualidade, coleta de lixo insuficiente, sofrimento mental entre jovens e altos custos de deslocamento para as cidades da região. As lideranças chamaram o Estado brasileiro a promover políticas públicas permanentes que garantam condições dignas de vida aos povos Maxakali.
