Há ilhas de excelência no meio de territórios feudais; há avanços de tecnologia de ponta ao lado de muralhas do passado

A fisionomia nacional revela fortes contrastes: há espaços de excelência administrativa convivendo com estruturas de mando que parecem puxar para trás. O debate sobre a reforma do Estado aponta que o essencial é redimensionar a máquina pública para torná-la mais eficiente, sem perder a sua capacidade de responder às necessidades da sociedade. A ideia central é introduzir uma gestão baseada em desempenho, em vez de arraigadas práticas de fisiologismo.
A meritocracia surge como ferramenta-chave para oxigenar, qualificar e ampliar a produtividade da administração. Trocar milhares de cargos comissionados por uma carreira de Estado permanente faria com que equipes cheguem ao trabalho com espírito de melhoria contínua, não apenas com mudanças de dirigentes. Modelos assim já existem em sistemas parlamentaristas, onde quadros estáveis conduzem a gestão pública mesmo diante de mudanças políticas.
Os entraves atuais vêm de uma cultura patrimonialista que distribui espaços de poder conforme o tamanho da influência de cada grupo, dificultando reformas profundas. A pergunta que permanece é como mudar essa lógica sem corroer a governabilidade. A resposta passa pela formação contínua, pela definição de metas claras, pela cobrança de resultados e por recompensas que valorizem o mérito real, não a sorte de uma aliança momentânea.
Quando temas relevantes ganham impulso junto ao centro do poder, as reformas — tributária, política e administrativa — avançam. A história mostra exemplos de avanços que mudaram a cara do país, desde leis de impacto social até medidas que abriram espaço para a modernização. Ainda assim, o caminho é longo e depende da pressão social, da qualidade das propostas e da capacidade de articulação no Congresso.
GAUDÊNCIO TORQUATO é professor emérito da USP, jornalista, escritor e consultor político
O leitor pode concordar ou discordar, mas a discussão sobre como estruturar o Estado para servir melhor a população está longe de ser irrelevante. Queremos ouvir sua opinião: você acredita que a meritocracia e a construção de uma carreira de Estado podem transformar a gestão pública no Brasil? Deixe seu comentário abaixo.
