Após 14 anos, policial acusado de atirar na cabeça da ex-namorada vai a júri nesta sexta-feira em Salvador

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Resumo: O Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) julga nesta sexta-feira, 10 de abril, um policial militar pela tentativa de homicídio contra a ex-namorada Jéssica Reis Ramos e pelo homicídio de um rapaz que estava no local, Jaime. O crime ocorreu em 9 de junho de 2012, em Ondina, Salvador, e envolve uma relação marcada por controle, ciúmes e violência.

Segundo a denúncia, o réu não aceitava o término do relacionamento com Jéssica. Na noite do ocorrido, ele teria levado a vítima a uma área isolada atrás de um hotel, em Ondina, e atirado contra ela na cabeça. Ao perceber a presença de Jaime, identificado pela defesa como testemunha, o policial também teria atirado nele, provocando a morte do rapaz no local. A versão inicial do réu, de tentativa de assalto frustrada, é questionada pela família da vítima e pelo Ministério Público.

A mãe de Jéssica, Cristina Ramos, ofereceu um depoimento detalhado, ao Bahia Notícias, sobre o que antecedeu o crime. Ela afirmou que o namoro começou quando Jéssica era menor de idade e que a família não aprovava a relação. “Ela namorava com ele há seis anos e foi um namoro assim, eu não aceitei desde o começo”, disse. Mesmo com a objeção da mãe, Cristina relatou que acabou permitindo o relacionamento, mas com resistência. “Eu deixei, mas de coração fechado”, completou.

A mãe descreveu um quadro de controle e ciúmes excessivos por parte do réu, que, segundo ela, tratava Jéssica como propriedade. “Ele era impulsivo. Queria mandar nela, não queria que ela tivesse amigos, nem amigas, proibindo-a de sair”, relatou. Cristina também destacou que o réu, por ser policial, costumava portar armas, o que agravava a tensão no convívio familiar.

Conforme o relato, nos dias que antecederam o crime, o réu apareceu na casa da família pelo menos duas vezes. Em uma das ocasiões, ele bateu à porta com violência, afirmou que não se responsabilizaria pelo que pudesse fazer e repetiu a ameaça no dia seguinte. Cristina ressaltou que, naquela época, ele já demonstrava estar profundamente descontrolado e nervoso, com armas na mão.

A dinâmica do crime, conforme a mãe, foi marcada pela convicção de que Jéssica iria reatar o namoro apenas para ser pressionada pelo réu. Ela contou que, pouco antes, o filho do casal perguntou se a jovem voltaria, ao que Jéssica respondeu que não. No dia do episódio, a vítima foi chamada para conversar, mas chegou acompanhada de medo, temendo a sequência de agressões que viria a ocorrer.

Segundo o depoimento de Cristina, o réu convidou Jéssica para conversar e a levou contra a vontade para o interior do veículo. Ela descreveu que o agressor a puxou, empurrou para dentro do carro e o arrastou em alta velocidade. O disparo contra Jéssica ocorreu na praia, atrás de um hotel em Ondina, em meio à escuridão. Jaime, que também estava no local, acabou morto pela agressão do policial.

Após o crime, Jéssica ficou internada em estado grave. Cristina relatou que o réu tentou entrar na UTI três vezes, tentando “terminar o que começou”, conforme a convicção da vítima e dos familiares. Amigos do réu teriam ajudado a autorizá-lo a entrar pela emergência, pois a portaria não permitia o acesso direto. A família viveu sob o peso de ameaças e precisou se mudar, com proteções solicitadas, que não foram plenamente respeitadas pela defesa do acusado.

O caso envolve ainda questões legais relevantes. O advogado da vítima informou que o réu chegou a ser preso, mas obteve alvará de soltura concedido pelo TJ-BA. O militar teria perdido a farda em um processo administrativo já julgado. A defesa sustenta que o feminicídio, tipificação criada apenas pela Lei 13.104/2015, não existia à época dos fatos, portanto o réu responde por tentativa de homicídio e pelo homicídio de Jaime. O julgamento está marcado para esta sexta-feira, dia 10 de abril.

Ao falar sobre o desfecho que espera, Cristina foi categórica: “Não é vingança, é justiça. Porque é injusto o que ele fez com minha filha e com outras que não tiveram coragem de denunciar. Minha filha eu procurei.” Ela relatou ainda que sofreu intimidações e perseguições após o crime, mas que não abriu mão de buscar justiça, mesmo diante de ameaças. A mãe ressaltou que, para ela, o objetivo é que o responsável responda pelo que fez, sem compensações ou explicações que mitiguem a crueldade do ato.

Encerrando o relato, Cristina ressaltou a gravidade dos impactos para a vida de Jéssica, que hoje convive com sequelas severas: cegueira total em um olho e menos de 2% da visão no outro, além de danos neurológicos, crises convulsivas e dependência de múltiplos medicamentos. A família depende de benefícios assistenciais devido à incapacidade laboral de Jéssica, cuja recuperação permanece improvável. O caso, acompanhado de perto pela comunidade jurídica, promete um desfecho importante para a sensível discussão sobre violência de gênero e responsabilização de agentes públicos.

Convidamos você a acompanhar o desenrolar deste caso e a deixar sua opinião nos comentários. Como você enxerga a busca por justiça neste cenário, e quais lições devem ser tiradas para prevenir novas tragédias semelhantes?

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