O pastor Ezra Jin, fundador da Igreja Zion, concedeu sua primeira entrevista desde a sua libertação na China, relatando episódios de perseguição religiosa, resistência da fé e esperança para a comunidade cristã chinesa.
Segundo informações divulgadas pela Sky News, parceira do PrimeiroJornal, a entrevista integra uma reportagem especial sobre o endurecimento da repressão a igrejas domésticas no país.
Jin foi preso em outubro de 2025, sob acusação de “operações comerciais ilegais”, uma linha de acusações comumente utilizada pelas autoridades chinesas contra líderes religiosos independentes.
Na conversa, o pastor descreve as condições da prisão: entre três e quatro detentos dividiam a mesma plataforma para dormir, a rotina era rígida e até caminhar exigia autorização. Quem ousasse desrespeitar as regras era punido. Ele também relatou intensa pressão psicológica para confessar crimes que afirma não ter cometido.
“Eles diziam: você precisa pensar nos seus colegas. Entre as pessoas presas há inocentes. Se você continuar se recusando a confessar, acabará envolvendo todos eles”, contou Jin.
O pastor Ezra Jin relembra emocionado os meses de prisão e fala pela primeira vez após ser libertado da China. (Captura de tela/YouTube/Sky News)
Legenda: O pastor Ezra Jin relembra emocionalmente os meses de prisão.
Crédito: Captura de tela/YouTube/Sky News
O período mais duro, segundo ele, foi quando ficou quase um mês sem conseguir encontrar seu advogado. Em carta enviada à família, ele deixou claro que não confessaria crimes que não cometeu e que não iria se suicidar.
A Sky News informou que encaminhou as alegações às autoridades chinesas, mas não obteve resposta.
Libertação inesperada
A própria libertação foi descrita como surpresa. Um agente penitenciário ordenou que ele saísse da cela para recolher seus pertences, e a princípio ele pensou que fosse a caminho de mais um interrogatório. Em vez disso, ele foi levado até uma estação de trem de alta velocidade. No vagão, havia apenas policiais à paisana que perguntaram para onde ele iria; Jin respondeu de forma cautelosa, e a orientação recebida foi: “Pense pelo lado positivo”.
As autoridades informaram que, embora considerassem comprovados os supostos crimes, Jin não seria processado. Em seguida, ele embarcou para os Estados Unidos.
O reencontro com a família
Durante os meses de prisão, a filha de Jin, Grace Jin, viveu a gravidez sem a presença do pai. Em entrevista à Sky News, Grace relembrou a dor daquele período:
“Conseguimos contar ao pai sobre o bebê pouco antes da prisão. Durante sete ou oito meses da minha gravidez, enquanto o bebê crescia, meu pai ficou atrás das grades.”
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Legenda: Grace Jin, filha de Ezra Jin, relembra a dor da gravidez sem a presença do pai.
Crédito: Captura de tela/YouTube/Sky News
Grace disse que o pai sempre foi um exemplo de fé para a família, acrescentando que ele também nutre profundo carinho pela China e pelas pessoas ao redor.
Bill Drexel, marido de Grace, afirmou que a família só acreditou na libertação quando o avião pousou em solo americano. “Foi uma operação extremamente delicada; nada parecia seguro até as rodas tocarem os Estados Unidos”, contou.
No reencontro, Grace quase não reconheceu o pai, que estava visivelmente mais magro, mas descreveu o momento como um milagre. Jin também revelou emoção ao falar do neto, que recebeu seu nome.
Mais de 100 pastores presos
Mesmo com a libertação, Jin buscou chamar atenção para os cristãos que permanecem atrás das grades. “Acredito que ainda existam mais de uma centena de pastores presos, além de muitos outros grupos religiosos e prisioneiros de consciência”, disse.
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Legenda: Alguns líderes da Igreja Zion detidos durante a repressão a igrejas domésticas. (Captura de tela/YouTube/Sky News)
Crédito: Captura de tela/YouTube/Sky News
Jin pediu que a perseguição não seja encarada como um desfecho feliz apenas para ele. “Ninguém deve acreditar que, por eu ter sido libertado, esta história terminou bem para todos”, afirmou. Ele alerta que a repressão continua intensa, com relatos de novas ações contra religiões no país.
A reportagem da Sky News encerra com a menção de que várias lideranças da Igreja Zion permanecem presas, entre elas a pastora Wang Kong e o pastor Wang Lin, além de Yang Huaibin, cuja esposa que também ficou encarceradak, mas posteriormente liberta mediante fiança.
Assista à entrevista completa, em inglês:
