PF deflagra a Operação Heritage no Mato Grosso para apurar desvio de cerca de R$ 308 milhões usados por meio de 15 fundos de investimento.
Alvos incluem o ex-governador Mauro Mendes e o deputado Fábio Garcia; mandados de busca, bloqueio de bens de até R$ 316 milhões e outras medidas já foram determinadas.
Investigações apontam uso de estruturas financeiras como “contas de passagem” para ocultar a origem dos recursos.
Mato Grosso — A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira, 6 de agosto de 2026, a Operação Heritage, que investiga um possível desvio de recursos públicos no estado por meio de uma rede de fundos de investimento associada a um acordo entre o governo de Mato Grosso e uma empresa de telefonia.

A engenharia de opacidade montada pela operação criaria blindagens financeiras para dificultar o rastreamento do dinheiro e mascarar os reais beneficiários, de acordo com a PF. Entre os alvos das medidas judiciais estão o ex-governador Mauro Mendes (União Brasil), o deputado federal Fábio Garcia (União Brasil), o desembargador Ricardo Gomes de Almeida e um procurador do estado.
Segundo o relatório da investigação, dez dos fundos foram criados no contexto de um acordo com a empresa de telefonia Oi, com datas de abertura que coincidem com repasses efetuados pelo governo estadual. A PF aponta que esses veículos não buscavam captação de mercado e operavam sem finalidade econômica real; alguns contavam com aportes iniciais simbólicos, incapazes de cobrir os custos de manutenção.
De acordo com os investigadores, parte dos mecanismos identificados funcionava como “contas de passagem”, permitindo que o dinheiro transitasse entre diferentes empresas e fundos antes de chegar aos destinatários finais. Em um trecho do relatório, a PF afirma: “Foi estruturada uma camada de fundos de investimento, que se conectaria a outros veículos de mesma natureza, com o objetivo de promover a distribuição dos valores, sob múltiplos véus de opacidade, entre todos os envolvidos na operação financeira”.
Entre os fluxos destacados pela PF, está o Zurich FIM CP, utilizado para movimentação temporária de recursos antes da transferência para o patrimônio de empresas ligadas aos investigados. Parte dos valores, segundo a investigação, teria sido direcionada a investimentos privados após a passagem por esses fundos.
Outro fluxo envolve o fundo Royal Capital FIDC, que teria destinado recursos à Parecis Bioenergia, uma empresa ligada aos filhos do ex-governador Mauro Mendes, enquanto o Lotte World FIDC teria direcionado valores ao núcleo familiar do deputado Fábio Garcia. A PF sustenta que a cascata de operações visava conferir aparência de legalidade aos recursos, dificultando a identificação da origem e dos beneficiários finais.
A operação, deflagrada nesta quinta-feira, apura suspeitas de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional, peculato, lavagem de dinheiro e uso de documentos falsos em um suposto esquema envolvendo um acordo entre o governo de Mato Grosso e a empresa de telefonia. A Justiça determinou busca e apreensão, quebra de sigilos bancário e fiscal, bloqueio de bens de até R$ 316 milhões, recolhimento de passaportes e proibição de contato entre os investigados.
A PF informou que as diligências tiveram início a partir da análise do acordo entre o Governo de Mato Grosso e a empresa para a restituição de valores relacionados a uma disputa tributária e apontou indícios de que a operação financeira foi empregada para desvio de recursos públicos por meio de fundos de investimento e empresas de fachada. A coluna entrou em contato com o ex-governador Mauro Mendes, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.
As informações indicam que a investigação está em andamento e que novas medidas poderão ser adotadas conforme os elementos que surgirem durante as diligências.

