Cuba celebra o centenário de Fidel Castro sob ataques norte-americanos

Escrito por: Diógenes Cunha

Publicado:

compartilhe esse conteúdo

Resumo: Cuba celebra os 100 anos do nascimento de Fidel Castro; em meio às homenagens, o país enfrenta grave crise energética agravada pelo embargo dos EUA. A ONU alerta para risco humanitário e a economia pode recuar 6,5% em 2026. Díaz-Canel acusa o embargo de genocídio político.

Cuba celebra nesta quinta-feira (13) os 100 anos do nascimento de Fidel Castro Ruz, líder da Revolução Cubana, cuja trajetória moldou o regime político e econômico da ilha desde 1959. A comemoração, iniciada em agosto do ano passado, reúne homenagens oficiais e atividades culturais por todo o país.

A crise energética é o principal desafio citado para o país, agravada pela obsolescência do sistema elétrico e pela pressão dos Estados Unidos para dificultar a importação de petróleo e derivados. No início de agosto, Cuba enfrentou dois apagões nacionais em menos de 24 horas.

A Cupet (União Petrolífera de Cuba) afirma que o país produz apenas um terço da demanda nacional de petróleo, o que alimenta gargalos de fornecimento de energia e dificulta o crescimento econômico.

Essa escassez de energia impacta diretamente o desenvolvimento econômico, com estimativas apontando queda de aproximadamente 6,5% no Produto Interno Bruto em 2026.

Havana- Cuba- 04/12/2024 Rede elétrica entra em colapso

Crédito: Reuters/Norlys Perez/Arquivo

Especialistas em direitos humanos da ONU condenaram a pressão americana e falaram em necessidade de resposta internacional rápida para evitar uma “Gaza silenciosa” em Cuba, em referência à grave crise humanitária vivida pela população na Palestina.

O presidente Miguel Díaz-Canel acusa o bloqueio americano de ser um “genocídio político” e aponta que as sanções agravam a carência de serviços básicos, incluindo a saúde, em um país reconhecido internacionalmente por oferecer atendimento universal e gratuito.

A história do embargo é marcada pela pressão econômica iniciada em 1962, após a nacionalização de empresas norte-americanas e a interrupção de acordos comerciais. Hoje, a política de sanções contribui para um cenário em que, para muitos cubanos, o país vive o pior momento recente, com impactos diretos no sistema de saúde e no cotidiano da população.

Havana- Cuba

Crédito: Reuters/Norlys Perez/Arquivo

Resumo: Fidel Castro, líder da Revolução Cubana, nasceu em Birán (Holguín). Conduziu a guerrilha que derrubou Batista, após o ataque ao Moncada em 1953 e o desembarque do Granma em 1956, culminando na vitória em 1º de janeiro de 1959. Governou Cuba por décadas, promovendo reformas sociais e mantendo relação tensa com os EUA durante a Guerra Fria, com papel marcante na história latino-americana.

Birán, Holguín, Cuba – Fidel Castro, nascido em Birán, vilarejo da região leste da ilha, desponta como a figura central da Revolução Cubana. Sua trajetória remete à guerrilha que, liderada por ele, moveu-se a partir de ações emblemáticas e da articulação de um movimento que buscava transformar o mapa político da ilha.

Um marco inicial da saga ocorreu com o ataque ao Quartel Moncada, em Santiago de Cuba, em 26 de julho de 1953. Embora a investida tenha sido frustrada e Fidel tenha sido capturado, o episódio ficou como símbolo da resistência contra o regime de Fulgêncio Batista. Ao ser julgado, em 16 de outubro de 1953, proferiu o histórico discurso La Historia me Absolverá, recebendo uma condenação de 15 anos de prisão, da qual foi anistiado pouco menos de dois anos depois.

Exílio e retorno Em 1955, Castro deixou o país e foi para o México, onde conheceu Ernesto “Che” Guevara. Juntos, organizaram o Movimento 26 de Julho e partiram rumo a Cuba a bordo do iate Granma, desembarcando em 2 de dezembro de 1956 com mais de 80 expedicionários, com o objetivo de tomar o poder. Logo após a chegada, o grupo foi alvo de novo ataque das forças de Batista, e os sobreviventes buscaram refúgio nas cordilheiras da Sierra Maestra, de onde conduziram a guerrilha até a vitória.

Conquista do poder A ofensiva culminou na vitória da guerrilha em 1º de janeiro de 1959, abrindo caminho para décadas de governo sob Fidel. Nos anos seguintes, o líder do movimento passou a consolidar políticas que transformaram a economia e o convívio social da ilha.

Décadas no poder Fidel permaneceu no poder por quase meio século. Nos primeiros anos, implementou a nacionalização de empresas e a reforma agrária. Ao longo do regime, ampliou o acesso à saúde, à moradia e à alfabetização em massa, moldando uma imagem de líder que ultrapassou as fronteiras cubanas e marcou o panorama político da região durante a Guerra Fria.

No âmbito internacional, o relacionamento com a URSS tornou-se uma peça central, enquanto a relação com os Estados Unidos se manteve tensa e conflituosa. Entre as avaliações de seu tempo, destaca-se a percepção pública de que Fidel, em determinados momentos, cultivou uma imagem de autoridade que resistiu a pressões externas, uma visão que manteve-se sob escrutínio global. Entre as referências ao redor de sua figura, o escritor colombiano Gabriel García Márquez comentou que Fidel “deixou de fumar para ter autoridade moral para combater o tabagismo”, frase que ilustra as ares de liderança associadas ao regime cubano e à imagem pública do comandante.

Resumo: Cuba debate o legado de Fidel Castro após sua morte, com reconhecimento de avanços sociais e críticas a restrições políticas. Organizações de direitos humanos destacam repressão a dissidentes e limitações à liberdade de expressão; o embargo dos EUA é citado como instrumento de pressão. Palavras?chave: Fidel Castro, Cuba, HRW, Anisti­a Internacional, embargo, direitos humanos.

Cuba, após a morte de Fidel Castro, enfrenta um balanço do seu legado: avanços sociais observados, porém críticas sobre liberdades políticas. O regime resistiu a diversas tentativas de influência externa, incluindo o embargo dos Estados Unidos, que persiste há décadas.

Segundo informações divulgadas pela HRW, o governo de Castro promoveu avanços significativos em educação, saúde, cultura e bem?estar social, mas o relatório aponta que o regime foi marcado pela repressão de praticamente todas as formas de dissenso, com milhares de cubanos encarcerados sob condições deploráveis e perseguição a opositores. O documento foi divulgado no dia seguinte à morte de Fidel Castro.

Fidel Castro (Alejandro Ernesto/Agência Lusa/Direitos Reservados)

Crédito: Alejandro Ernesto/Agência Lusa/direitos reservados

A Anistia Internacional reconheceu avanços sociais em Cuba, mas afirmou que o estado da liberdade de expressão na ilha, «onde ativistas continuam a ser presos e perseguidos por se manifestarem contra o governo», é o legado mais sombrio de Fidel Castro. A organização disse ter testemunhado centenas de histórias de ‘prisioneiros de consciência’ — pessoas detidas pelo governo simplesmente por exercerem pacificamente seus direitos de expressão, associação e reunião.

Fidel Castro

Crédito: Arquivo/Agência Brasil

O debate sobre o legado de Fidel Castro, que inclui críticas por violações de direitos humanos e perseguição a dissidentes, permanece central na avaliação internacional sobre o regime cubano. Organizações de direitos humanos continuam acompanhando o país, enquanto a narrativa oficial enfatiza avanços sociais como parte de um modelo político que persiste há décadas.

Resumo: Fidel Castro deixou a Presidência de Cuba por questões de saúde em 2006, transferindo o poder para o irmão Raul. Em 2008, Castro renunciou definitivamente; Raul governou até 2018, quando foi sucedido por Miguel Díaz-Canel. Fidel faleceu em 2016, gerando luto oficial e debates sobre seu legado, amplamente discutido entre historiadores quanto a aspectos autoritários e aos avanços sociais da Revolução Cubana.

Cuba – Fidel Castro deixou a Presidência da República em 31 de julho de 2006, por questões de saúde, transferindo as funções para o irmão Raul Castro, que passou a ocupar os cargos mais altos da cúpula do regime. A decisão ocorreu dias antes de completar 80 anos, devido a complicações intestinais que exigiam cirurgia.

O presidente de Cuba, Raul Castro

Crédito: Arquivo Agência Brasil

Conforme informações da Agência Brasil, a transição começou com uma licença temporária e, em 19 de fevereiro de 2008, Fidel renunciou definitivamente à Presidência. Ele escreveu: “Não me despeço de vocês. Só desejo combater como soldado das ideias”, ao anunciar a mudança.

O Raúl Castro assumiu a liderança até abril de 2018, quando foi sucedido pelo atual presidente, Miguel Díaz-Canel.

Fidel Castro faleceu na noite de 25 de novembro de 2016, já na madrugada de 26 no Brasil, aos 90 anos. O luto oficial durou nove dias, com despedida pública em Havana e uma carreata com as cinzas até Santiago de Cuba. Em Miami, oposições comemoraram a morte, em meio a uma narrativa que o classificava de ditador.

Legado – A professora de História Adriane Aparecida Vidal Costa, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), classifica o legado de Fidel como “um dos temas mais polarizados e controversos da historiografia latino-americana”. Segundo informações obtidas junto à Agência Brasil, parte dos historiadores enfoca questões autoritárias, como o regime de partido único desde 1965, o controle estatal da imprensa e a repressão de dissidentes, incluindo leis que atingiram minorias nas décadas de 1960 e 1970, posteriormente revistas pelo governo cubano. Por outro lado, há quem ressalte a soberania nacional frente aos Estados Unidos e os avanços sociais alcançados, com indicadores que, em alguns aspectos, se comparam aos de países desenvolvidos.

Resumo jornalístico

Cuba discute o legado de Fidel Castro e as consequências econômicas da Revolução, com foco no embargo dos EUA, no Período Especial e na atual crise. Especialistas apontam avanços sociais e tensões entre democracia participativa e governança centralizada, em um contexto de dependência externa e queda de parceiros. Fontes: Adriane Costa (UFMG) e Norberto Osvaldo Ferreras (UFF).

Cuba enfrenta, no presente, um debate sobre o legado de Fidel Castro e as consequências de décadas de embargos econômicos e crises internas. Em território cubano, pesquisadores discutem como a Revolução moldou economia, política e sociedade, e como o país encara o cenário atual, marcado por tensões entre modelos de governança e pressões externas. O tema é explorado por especialistas de universidades brasileiras que analisam tanto avanços quanto gargalos herdados.

Avanços sociais A professora Adriane Costa, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), aponta que os avanços sociais são vistos como os maiores acertos da Revolução Cubana, incluindo indicadores de mortalidade infantil e expectativa de vida citados por organismos internacionais como a Organização Mundial da Saúde. Ela acrescenta que a democracia participativa, via sindicatos e assembleias de bairro, representa uma forma de legitimidade popular distinta do modelo liberal-representativo. O processo migratório maciço é interpretado como sintoma de insatisfação interna.

Embargo e dependência externa Costa encara o embargo americano como uma resposta dos EUA à nacionalização de empresas sem compensação adequada, associando ainda o alinhamento de Cuba à URSS e o apoio a movimentos revolucionários na região a fatores que vão além das escolhas de Fidel Castro. “Foi muito mais uma retaliação do que propriamente resultado das escolhas de Fidel Castro”, afirma a pesquisadora. Ela também destaca que a crise atual na ilha decorre, em parte, do bloqueio econômico intensificado durante administrações recentes e do colapso de parceiros como a URSS e, mais recentemente, a Venezuela.

“O modelo institucional herdado de Fidel criou as condições estruturais de vulnerabilidade, como baixa diversificação econômica, dependência externa [URSS] e ausência de reformas econômicas mais profundas durante o ‘Período Especial’ dos anos 1990”, elenca.

A pesquisadora também chama a atenção para o impacto da pandemia de COVID-19, que atingiu com força o turismo — principal fonte de renda de Cuba — agravando a situação econômica e social do país.

Fidel Castro

Crédito: Alejandro Ernesto/Arquivo Lusa/Direitos Reservados.

Parte da história

O professor Norberto Osvaldo Ferreras, da Universidade Federal Fluminense (UFF), sustenta que é impossível dissociar Fidel Castro da história de Cuba no século XX. “Podemos dizer que Cuba se divide em duas grandes figuras, José Martí, o herói da independência, e Fidel, o herói da emancipação definitiva”, afirma Ferreras.

O especialista da UFF compara o atrelamento de Fidel à importância de Nelson Mandela para a África do Sul, observando que são figuras que marcaram a transição de um modelo político a outro.

Ainda que reconheça a relevância histórica de Fidel, Ferreras aponta que o país precisou lidar com uma transição complexa, que envolve fatores externos e internos, e ressalta a necessidade de interpretar Cuba a partir de seu próprio contexto histórico, social e econômico.

Resumo jornalístico

Fidel Castro é analisado como figura central na história política da América Latina, com ênfase à influência de Cuba nas décadas de 1960-1970. O estudo discute democracia, autoritarismo e os novos parâmetros de representatividade criados pela revolução cubana. A análise destaca que o legado pode perdurar no longo prazo, ainda que evolua conforme mudanças globais. Fonte: Agência Brasil, parceira do PrimeiroJornal.

Um estudo conduzido pelo acadêmico Norberto Ferreras, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), analisa o legado de Fidel Castro na política latino?americana e destaca a influência de Cuba nas décadas de 1960 e 1970. O pesquisador sustenta que Cuba jamais foi uma democracia representativa eleitoral, mas que a Revolução reconfigurou os termos da democracia liberal burguesa, estabelecendo novos parâmetros de representatividade.

Segundo Ferreras, Cuba nunca foi uma democracia representativa eleitoral, e a revolução posicionou a democracia liberal burguesa em novos marcos de participação. Ele acrescenta que a eleição de presidente se dá pela via não direta, e que Fidel Castro ampliou a representatividade em uma sociedade que vivia sob um regime autoritário apoiado pelos Estados Unidos.

Fulgêncio Batista exerceu a presidência de 1940 a 1944 e retornou ao poder em 1952, por meio de um golpe, governando até 1959. O comentarista ressalta que a presença de um partido único é um fator que complica a leitura sobre o sistema político cubano.

Influência internacional O acadêmico da UFF destaca que Fidel Castro teve enorme influência na América Latina, principalmente nas décadas de 1960 e 1970, atuando como motor, financiador e refúgio de militantes de esquerda e revolucionários.

“Fidel tem uma importância decisiva na trajetória que tiveram os movimentos revolucionários e de esquerda na América Latina”, complementa.

Personalidades brasileiras viveram em Cuba enquanto o Brasil enfrentava a ditadura militar (1964?1985).

“Fidel tem uma importância decisiva na trajetória que tiveram os movimentos revolucionários e de esquerda na América Latina”, complementa.

Após a década de 1980, muitos antigos aliados e admiradores de Fidel passaram a se tornar críticos do sistema político cubano. Ferreras cita exemplos de esquerda europeia que perdeu força, além de mudanças em países da América Latina, como o PRI no México, o radicalismo na Argentina e o socialismo chileno. “A virada à direita na América Latina esvaziou o apoio também”, aponta.

Legado a longo prazo Ao avaliar o horizonte de 100 anos, Ferreras afirma que figuras políticas costumam estar vinculadas a contextos específicos. A presença de Fidel Castro pode persistir em Cuba, mas o legado tende a se transformar com o tempo. O panorama atual, segundo o professor, envolve a reformulação das instituições liberais democráticas e a redefinição das relações entre a América Latina, os Estados Unidos e a China, em um cenário de disputa por influência. Hoje é mais uma figura vinculada a um momento histórico do que um agente de mudança contínua.

Fonte: informações obtidas junto à Agência Brasil, parceira do PrimeiroJornal.

Compartilhe esse artigo:

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

ARTIGOS RELACIONADOS

Pequim registra chuva intensa com a passagem do tufão Dolphin

Resumo jornalístico Tufão mais forte do ano atinge Beijing, provocando chuvas intensas, alagamentos e...

Terremoto na Colômbia leva membros do Mercosul a oferecer assistência

Resumo: Mercosul expressa solidariedade à Colômbia após terremoto de magnitude 7,4. Mortes passam de 224; Lula lamenta. Países membros e associados prometem cooperação...

Tempestades provocadas pelo tufão Dolphin chegam ao leste da China

Resumo jornalístico: Tufão Dolphin traz chuvas intensas e alagamentos no leste da China, com destaque para Xangai. Voos são cancelados e ruas ficam inundadas;...