Investigação revela prática de triturar pintinhos na indústria de ovos

Escrito por: Diógenes Cunha

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Resumo: MFA documenta trituração de pintinhos machos recém-nascidos em incubatório da indústria de ovos no Sul do Brasil; cerca de 35 mil animais mortos em um dia. Sexagem in ovo é apresentada como alternativa, já utilizada em outros países; no Brasil, a primeira máquina foi instalada em 2025, com adoção ainda incipiente por dificuldades financeiras.

Região Sul do Brasil — Uma investigação da Mercy For Animals documenta a trituração de pintinhos machos recém-nascidos em um incubatório de grande porte da indústria de ovos na região. Aproximadamente 35 mil animais foram mortos em um único dia na unidade investigada. O nome da empresa foi mantido em sigilo.

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Crédito: Agência Brasil

Os pintinhos tinham menos de 24 horas de vida e eram colocados em máquinas com lâminas rotativas de alta velocidade. A prática ocorre porque os machos não põem ovos e, segundo a investigação, não apresentam características genéticas consideradas adequadas para a produção de carne. Na cadeia produtiva, eles são separados das fêmeas logo após o nascimento e destinados ao descarte.

A vice-presidente de Investigações da MFA, Luiza Schneider, esclareceu que o objetivo não era investigar uma denúncia específica, mas documentar uma prática representativa de quase toda a indústria. Segundo ela, a questão central é o bem-estar dos animais.

“ Os pintinhos recém-nascidos têm plena capacidade de sensiência, o que significa capacidade de sentir medo ou dor física. Eles têm o sistema nervoso completamente formado”, disse Luiza.

A prática também mostra que os maceradores mecânicos nem sempre provocam a morte imediatamente, o que pode prolongar o sofrimento, segundo a MFA.

A investigação também registrou o descarte de fêmeas. Segundo a MFA, elas eram eliminadas em menor número quando apresentavam anomalias, deformidades, sangramentos ou nascimento prematuro, ou quando excediam a demanda dos criadores.

Alternativas

Uma das alternativas apresentadas pela organização é a chamada sexagem in ovo, tecnologia que identifica o sexo do embrião durante a incubação. Os ovos com embriões machos podem ser retirados antes da eclosão, evitando que os pintinhos nasçam e sejam posteriormente descartados.

A tecnologia já está sendo utilizada em outros países.

Segundo a organização Innovate Animal Ag, na União Europeia cerca de 130 milhões de um total aproximado de 340 milhões de poedeiras eram provenientes do método em junho deste ano.

A Alemanha, França, Áustria e Itália adotaram legislações que proíbem a trituração, enquanto a Noruega e a Suécia avançam para eliminação da prática por decisão de mercado.

No Brasil, a primeira máquina de sexagem in ovo foi instalada em julho de 2025 no incubatório da Hy-Line do Brasil, em Nova Granada, no interior de São Paulo. A iniciativa teve como cliente-âncora a Raiar Orgânicos, que possui cerca de 400 mil aves e se comprometeu a converter todo o plantel. Os primeiros eggs produzidos com a tecnologia chegaram ao mercado em dezembro daquele ano.

Custos

A adoção da tecnologia, entretanto, ainda é pequena. De acordo com o panorama elaborado pela Innovate Animal Ag, a máquina instalada no Brasil opera abaixo da capacidade. O principal obstáculo ainda é financeiro.

Resumo: Brasil discute a adoção da sexagem in ovo para evitar o descarte de pintinhos machos na indústria de ovos. O custo adicional projetado fica entre 5 e 10 reais por ave, elevando o preço final em cerca de 80% a 150% ante o método tradicional (cerca de 7 reais por ave). Uma poedeira gera em média 350 ovos por ciclo, diluindo o impacto para o consumidor em poucos centavos por dúzia. Parlamentares, indústria e consumidores acompanham o tema, com propostas em tramitação e pesquisas de opinião indicando descontentamento com o sistema atual.

Brasil analisa a sexagem in ovo como caminho para evitar o descarte de pintinhos machos na indústria de ovos. O estudo aponta que o custo adicional fica entre R$ 5 a R$ 10 por ave, elevando o preço final entre 80% e 150% em relação ao método convencional, que custa cerca de R$ 7 por ave. Ainda segundo o levantamento, uma poedeira produz, em média, 350 ovos por ciclo, de modo que o acréscimo por dúzia ficaria em poucos centavos ao consumidor.

Vanessa Garbini, vice-presidente de Relações Institucionais e Governamentais da MFA, afirma que a adoção de novas formas de produção em outros países demonstra que os custos finais não inviabilizam os ganhos da indústria. “O fato de Suíça e Noruega, por exemplo, implantaram a sexagem in ovo sem nem ter legislação, simplesmente por verem os benefícios para os consumidores, mostra que o custo da mudança não é tão grande. Se fosse inviável, não estaria acontecendo na Europa”, argumenta Garbini.

Há sinais de interesse do setor industrial. Organizações de defesa dos animais citam compromissos públicos de empresas como Planalto Ovos, Grupo Mantiqueira e Korin de suspender a trituração, condicionados à existência de uma tecnologia economicamente viável e operacionalmente viável.

Em agosto, um encontro nacional sobre sexagem in ovo reuniu representantes de tecnologia, produtores de ovos, instituições financeiras e órgãos públicos, incluindo o Ministério da Agricultura (Mapa) e a Finep.

Congresso Nacional

No Brasil, ainda não há norma federal específica que proíba ou restrinja o descarte de pintinhos machos. O tema já chegou ao Congresso Nacional, por meio dos projetos de Lei 783/2024 e 3034/2026. O PL 783/2024, de autoria da deputada Luciene Cavalcante (PSOL-SP), já passou pela Comissão de Meio Ambiente e pela Comissão de Agricultura, mas recebeu parecer contrário na segunda comissão e deve seguir para o plenário. O PL 3034/2026, apresentado pela deputada Helô Helena (Rede-RJ) em junho, está no início da tramitação. A MFA ressalta que a Constituição proíbe práticas cruéis contra animais, cabendo à autoridade competente a avaliação jurídica caso a caso.

Para a associação, tais dispositivos podem embasar o debate sobre a prática, mas não substituem a necessidade de avaliação técnica e jurídica pelas autoridades competentes. A MFA também informou que pretende encaminhar denúncia ao Ministério Público para que os órgãos responsáveis analisem as práticas sob investigação.

Consumidor também acompanha o tema. Levantamento da Innovate Animal Ag com 1.553 compradores de ovos mostrou que 73% se apresentam desconfortáveis com o abate de pintinhos machos e 76% concordam que a indústria deve encontrar uma alternativa à prática atual.

Resumo — Estudo sobre sexagem in ovo aponta forte interesse do público por ovos produzidos com essa prática: 79% dos entrevistados demonstraram interesse, e 76% disseram estar dispostos a pagar mais, com a média de R$ 3,87 por dúzia. A pesquisa também destaca a necessidade de mais informações públicas para ampliar o debate sobre bem?estar animal e possíveis avanços regulatórios.

Um estudo sobre a prática de sexagem in ovo aponta que 79% dos entrevistados demonstraram interesse em ovos com esse diferencial, enquanto 76% afirmaram que pagariam mais pelo produto, com uma média de R$ 3,87 por dúzia. Os resultados indicam demanda considerável, ainda que não estabeleçam políticas oficiais ou preços definitivos.

Luiza Schneider afirma que a falta de informação ajuda a explicar por que a questão ainda provoca pouca pressão social. “Há um desconhecimento da população em relação a algumas práticas dessa indústria. Então, há pouca mobilização para que elas não aconteçam”, disse a pesquisadora.

Vanessa Garbini acrescenta que, quanto mais as pessoas estiverem expostas à realidade, mais fácil será avançar com uma legislação para proibir os maus?tratos contra animais. “Depois que você sabe o que acontece, não consegue esquecer. Um monte de animais, bebês recém?nascidos rolando em esteiras para serem triturados ainda conscientes. É praticamente impossível uma pessoa não se impressionar com essa atividade”.

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