Humorista viraliza e é ameaçado após encenar execução de “patriotas”

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“Nosso negócio não é fazer notinha de repúdio para vocês. Nosso negócio é descer a porrada na cabeça de patriota”, diz Tiago Santineli em um vídeo humorístico, parodiando Bastardos Inglórios. O teaser chamado Patriotas Inglórios foi feito para divulgar o show de stand-up do comediante. Nele, é encenada uma “caça” por “patriotas”, com direito a piadas sobre meritocracia, morte de Olavo de Carvalho e o assassinato de um sósia de Luciano Hang, além da participação do rapper Djonga. O vídeo alcançou quase 1 milhão de visualizações, viralizando entre risos, polêmicas e ameaças contra o autor.

Tiago Santineli é um humorista brasiliense de Samambaia Sul. O trabalho na comédia ganhou destaque no Brasil todo, mas furou a bolha do seu público principalmente quando gerou polêmica entre críticos por vídeos como aquele teaser, que não fazem questão de pegar leve com apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e, muita vezes, até agressivo.

“O pessoal fala: ‘Ah, esse é o amor que venceu?’. Nunca foi minha intenção levar paz e amor para essa galera. Não é isso que eles querem. Paz para quem quer paz. Quem não quer, vai ter de volta o que pediu. Esse discurso aí é muito furado. Minha arma não é a violência, mas o meu discurso ser mais violento para cima deles já é uma boa arma”, afirma Tiago, ao Metrópoles.

 

Após o teaser de divulgação viralizar, o comediante chegou a sofrer ameaças de morte, como quando recebeu foto de um homem mostrando uma arma ou quando foi fotografado saindo de casa, por alguém que queria intimidar e mostrar que sabia onde ele morava. Alguns shows tiveram até que ser cancelados por ameaças de invasões. Tiago se defende citando as diferenças entre a violência encenada em um contexto humorístico e a violência prática.

“O método que usam contra mim é o que eles aprenderam com o próprio [Bolsonaro]. Um candidato a presidente subiu em um palanque e falou que ia metralhar a ‘petralhada’. Claro que aprenderam com ele. Quando alguém usa a violência encenada, já ficam malucos. Foi o que eu fiz.”

Críticas O show de stand-up que veio após o teaser, chamado Antipatriota, alcançou mais de 800 mil visualizações no YouTube e mais de 10 mil comentários. A maior parte veio de pessoas que apoiaram e riram com as piadas de tom político, mas Tiago também recebeu uma enxurrada de críticas, principalmente de conservadores e bolsonaristas.

“A maior parte dos comentários era: ‘Ah, mas se fosse alguém do nosso lado fazendo um negócio desse? Já estaria preso’. Eu tenho que responder: ‘O lado de vocês não faz encenado’. Eles matam de verdade. Mataram uma vereadora, um pai de família em uma festa de aniversário, um mestre de capoeira em 2018, ainda, antes das eleições que eles ganharam, porque estava com uma camisa do Haddad. Sem contar a pandemia, quando muita gente morreu e eles estavam dando risada”, rebate.

No show, Tiago conta que perdeu um tio “negacionista” para a Covid-19, faz piadas com os invasores do 8 de janeiro e ri da clássica questão do “limite do humor”. “Para mim, o limite é a lei. Se não infringe alguma lei, pode fazer”, avalia. O próprio Luciano Hang, segundo Tiago, enviou uma notificação de processo, por um vídeo em que o humorista reage às falas do empresário.

Dona Fátima Do lado ideológico oposto àquele de quem criticou e ameaçou o comediante, está um público que lota os shows e faz o humorista viralizar nas redes. Nas quase duas horas de apresentação divulgadas no YouTube, o comediante arranca risos até comentando sobre um dos dias mais trágicos da democracia brasileira.

“A gente cresceu tendo dois referenciais de terrorismo, que aprendeu em filme de Hollywood, bem caricato, bem esteriotipado: russo e árabe. Russo careca, grandão, cicatriz na cara, cheio de tatuagem, com AK-47 na mão, invadindo a Casa Branca. Ou um árabe com turbante, grandão, barba imponente. Um monte de dinamite no corpo. Aquela imagem gera medo e terror. Aí vem a gente, com quem? Dona Fátima. […] Qual armamento ela usou? Fuzis? Bombas? Não, o intestino solto.”

Tiago contou ao Metrópoles que as maiores risadas do público vêm das piadas com bolsonaristas que tentaram um frustrado golpe de estado no 8 de Janeiro, como Dona Fátima, que chegou a ser presa na Operação Lesa Pátria após aparecer em vídeo dizendo que estava “quebrando tudo e cagando”, literalmente, dentro de um dos prédios da Praça dos Três Poderes.

O humorista segue com shows pelo Brasil, se prepara para voltar a Brasília em setembro e não muda o tom do trabalho que faz em meio às críticas e aplausos. Tanto que adianta que o próximo stand-up será sobre religião. “Só tenho a dizer o argumento que eles sempre usam: isso é liberdade de expressão. É minha liberdade de expressão artística. O que faço é arte. Caso extrapole, a lei está aí para me punir”, finaliza.

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