Narges Mohammadi e todas as mulheres no Irã (Por Tiago Luz Pedro)

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A justíssima escolha da activista iraniana Narges Mohammadi para Prémio Nobel da Paz 2023 tem pelo menos dois méritos indiscutíveis. Desde logo, traz para primeiro plano a história de vida de uma mulher que é um exemplo raro de coragem e abnegação num país cujo regime faz da opressão contra as mulheres uma condição crítica da sua existência; depois, como sublinhou o Comité Nobel ao anunciar a sua escolha, ela resulta como homenagem ao movimento “Mulher, Vida, Liberdade”, que abalou as fundações do regime iraniano após a morte, em 2022, da jovem curda Mahsa Amini e que foi reprimido à custa da morte e prisão de milhares de activistas no país. Um ano depois, o movimento de protesto continua vivo.

A luta de Narges Mohammadi, de 51 anos e a mais proeminente activista pelos direitos humanos no Irão, perpassa todos os temas que são caros à República Islâmica e aos pilares do seu sistema clerical, da violação sistemática dos direitos das mulheres ao uso obrigatório do hijab, do estado das prisões e da tortura contra prisioneiros políticos à abolição da pena de morte – o Irão foi o país com o maior número de execuções conhecidas no ano passado, num total de 576, segundo um relatório recente da Amnistia Internacional.

Os seus 32 anos de activismo e compromisso feminista, primeiro como estudante, depois trabalhando em jornais ligados ao movimento reformista e, mais tarde, no Centro dos Defensores dos Direitos Humanos – fundado pela advogada Shirin Ebadi, Nobel da Paz em 2003 e que era até aqui a única iraniana a vencer o prémio –, tiveram um enorme custo pessoal: a sua liberdade e a separação da família, exilada em França há 11 anos e que Mohammadi não vê há oito.

Presa pela primeira vez há 22 anos, Narges Mohammadi cumpre actualmente diversas penas que chegam a 12 anos na famigerada prisão de Evin, em Teerão, onde se recusa a desistir das suas causas mesmo atrás das grades. “Somos movidos pela vontade de sobreviver, quer estejamos dentro ou fora da prisão. A repressão violenta e brutal do governo pode, por vezes, manter as pessoas fora das ruas, mas a nossa luta continuará até ao dia em que a luz dominar as trevas e o sol da liberdade abraçar o povo iraniano”, escreveu em Setembro último, no aniversário da morte de Mahsa Amini, esta mulher nascida sete anos antes da Revolução iraniana e cujo maior exemplo de coragem foi nunca ter aceitado a sua condição de vítima.

“Tenho de manter os olhos no horizonte e no futuro, embora os muros da prisão sejam altos e bloqueiem a minha visão”, disse numa rara entrevista ao The New York Times no início deste ano. O Nobel para Narges Mohammadi pertence a cada mulher iraniana que sofreu e continua a sofrer às mãos de um regime tão primitivo como brutal.

(Transcrito do PÚBLICO)

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