Arquiteto que fez história em SP lamenta “desastrosa ocupação da cidade”

Publicado:

compartilhe esse conteúdo

Resumo curto: a entrevista com o arquiteto Siegbert Zanettini, aos 91 anos, revela uma visão contundente sobre a transformação de São Paulo, guiada pela lógica do lucro imobiliário. Ele denuncia a ocupação desordenada da cidade, a destruição de referências históricas como a Panamericana e o impacto negativo no cotidiano, no trânsito e na paisagem. Zanettini, com uma carreira de mais de 70 anos e cerca de 1.200 projetos, defende urbanismo que respeite o lugar, a luz e o convívio público. O texto também acompanha sua luta pela preservação do patrimônio, sua experiência em batalhas passadas, e sua inquietação diante da nova onda de edifícios gigantescos que migraram para bairros centrais.

Ao longo de quatro décadas dedicadas à FAU-USP, Zanettini construiu o que ele chama de uma “obra limpa” com estruturas metálicas, privilegiando montagem na fábrica e menos impacto no espaço urbano. Ele descreve a diferença entre a construção modular e a ocupação da rua, lembrando exemplos históricos, como a demolição de uma Panamericana na Groenlândia, que ele considerou um prejuízo irreparável para a memória coletiva da cidade. Para ele, o risco não está apenas na aparência, mas na lógica de ocupação do solo, no destravamento de árvores e de vazios que definem a qualidade de vida de moradores de regiões que hoje sofrem com barulho, trânsito e falta de incidência de sol.

A crítica de Zanettini não se limita a casos isolados. Ele aponta que o que está em curso é uma transformação da cidade movida pelo valor financeiro, onde empreendimentos de grande porte costumam desrespeitar a escala urbana, a paisagem local e as necessidades reais de circulação. “É um desrespeito à urbanidade”, afirma, citando prédios com alturas abruptas que criam desequilíbrio em ruas estreitas, e lembrando que a cidade não se faz apenas com lucro, mas com regras que garantam qualidade de vida aos seus moradores.

Entre as lembranças da sua trajetória, Zanettini relembra a resistência ao prolongamento da Faria Lima nos anos 90, quando se mobilizaram bairros como Itaim, Vila Olímpia e Pinheiros para conter impactos devastadores sobre o tecido urbano. Ele descreve que as lutas não são apenas sobre edifícios, mas sobre a possibilidade de manter espaços públicos vivos, onde a rua seja um lugar de encontro e não apenas um cenário para mais concreto. Mesmo hoje, ele observa que o atual eixo entre a Avenida Angélica e o entorno do metrô continua sob pressão de uma lógica que prioriza o volume de construção.

Para o mestre da arquitetura, a solução passa por uma mudança estrutural: retirar a cidade da lógica de mercado que dita o ritmo do adensamento sem considerar o impacto ambiental, o ruído, a iluminação e a mobilidade efetiva. Ele cita, de modo crítico, a presença de edifícios que, sob o pretexto de eficiência, destroem o entorno, os parques e as árvores, deixando a sensação de que a urbanização está sendo manipulada apenas para gerar lucro. Em suas palavras, é preciso reverter a equação entre “volume” e “valorização” para que o espaço público respire novamente.

Na prática, Zanettini mantém uma visão de cidade que ainda valoriza o espaço de convivência. Ele alerta para a dificuldade de jovens arquitetos trabalharem com desenho à mão, uma habilidade que ele ainda utiliza com a mão, sem depender unicamente de máquinas. A ideia é que a arquitetura preserve a relação com o entorno, com a rua, com o movimento e com a iluminação natural. Segundo ele, a linguagem gráfica de hoje tem perdido uma parte essencial da criatividade que surge do traço humano.

Além de falar sobre o passado, o professor também aborda o presente e o futuro. Ele cita seu próximo livro, Os Desafios da Arquitetura no Século XXI, que promete trazer uma reflexão sobre os dilemas de preservação, urbanismo equilibrado e a necessidade de projetos que considerem a qualidade de vida como parâmetro central. Zanettini está engajado na defesa de patrimônios como a Escola Panamericana de Artes, que, segundo ele, representa não apenas um prédio, mas um conjunto de memórias e histórias que moldaram o bairro.

O cenário que emerge do diálogo é claro: a cidade precisa de um urbanismo que ponha a vida dos moradores em primeiro plano, respeitando a história, a paisagem, a circulação e a luz. Enquanto houver pressões de mercado que elevem o volume de construção acima de tudo, a luta de Zanettini continuará, marcada por críticas contundentes, memória histórica e a convicção de que é possível desenhar cidades mais humanas.

Na sequência, uma segunda galeria apresenta imagens que destacam a figura de Zanettini, seu trato humano com a profissão e a forma como a cidade o inspira e o desafia. A montagem dessas imagens busca oferecer aos leitores um vislumbre visual da relação entre o arquiteto, o patrimônio e o espaço urbano que ele tanto critica quanto protege.

Encerramos destacando que o debate sobre o destino de áreas históricas, de edifícios tombados e de espaços públicos continua vivo. O legado de Zanettini desafia a ideia de que a cidade é um mero tabuleiro de negócios. Em vez disso, ele propõe uma cidade onde o sol, o vento, a mobilidade e a memória coexistam com a inovação, sem abrir mão da dignidade de quem mora, trabalha e circula pelos seus bairros.

Convido você, leitor, a compartilhar sua opinião sobre como equilibrar preservação, desenvolvimento e qualidade de vida nas grandes cidades. Você concorda que o lucro não pode substituir a vida cotidiana? Quais exemplos de boa prática urbana você já viu ou experimentou? Deixe seu comentário e participe da construção de uma cidade mais humana.

Compartilhe esse artigo:

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Apesar de “amadores”, ladrões de banco em MG seguem fugindo da polícia

Guidoval, Minas Gerais — por volta das 3h da madrugada do dia 10 de abril, um grupo de aproximadamente dez homens invadiu uma...

Astronauta da Artemis II captura “pôr da Terra” em vídeo pelo celular

Resumo: a Artemis II levou quatro astronautas da NASA e da Agência Espacial Canadense para uma missão de 10 dias em órbita ao...

Estudo aponta dengue mais grave em pacientes com doença renal crônica

Resumo curto: um estudo conjunto da Faculdade de Medicina de Botucatu (Unesp) e da Universidade Federal do Ceará (UFC) mostrou que pacientes com...