Em uma tendência que se prolonga há anos, o Governo da Argélia vem fechando igrejas protestantes, forçando fiéis a se reunirem em casas ou em espaços improvisados. Um relatório do Centro Europeu de Direito e Justiça (ECLJ), publicado em 2026, aponta 58 templos fechados desde 2006 e registra que, em janeiro de 2025, as últimas igrejas evangélicas haviam encerrado suas atividades. Mesmo diante desse cenário, a população cristã local continua crescendo, estimada em cerca de 156.000 pessoas — cerca de 0,3% da população total — com a maior concentração na Cabília. O documento descreve o que chama de um sistema jurídico e administrativo restritivo, afirmando que ele mina a liberdade religiosa reconhecida por normas internacionais.
A base legal para essas restrições é clara na prática: uma portaria de 2006 exige que atividades religiosas não muçulmanas ocorram apenas em edifícios oficialmente aprovados, e uma lei de 2012 obriga o registro de associações religiosas, processo que críticos dizem estar efetivamente bloqueado.Ânte isso, as autoridades costumam rejeitar pedidos para abrir novos locais de culto, tornando praticamente inviável qualquer expansão formal do culto cristão.
Pastores e fiéis foram processados por realizar cultos sem autorização, e investigações policiais durante reuniões de oração resultaram em detenções e interrogatórios. Em um caso recente, um grupo de cristãos ficou detido por horas após uma reunião, evidenciando os riscos enfrentados por quem se reúne fora dos espaços oficiais. Além disso, o relatório cita uma lei que criminaliza determinadas formas de expressão religiosa, com punições que vão de multas a prisão.
As autoridades têm utilizado essas leis para processar postagens em redes sociais, distribuição de material religioso e discussões públicas sobre o cristianismo. Diante desse quadro, muitos fiéis evitam exibir símbolos religiosos ou falar abertamente sobre suas crenças, temendo consequências legais ou reações sociais adversas.
Mesmo com as pressões, a população cristã da Argélia continua a crescer, especialmente entre protestantes evangélicos. Estima-se que haja cerca de 156.000 fiéis, representando aproximadamente 0,3% da população, com grande parte desse aumento ocorrendo na Cabília. A expansão ocorre, porém, fora das estruturas oficiais, à medida que igrejas perdem o estatuto legal e a visibilidade pública. O fenômeno é acompanhado por relatos de fiéis que passam a se reunir em “igrejas domésticas”, em espaços privados ou em áreas remotas, como se tocasse o dia a dia de uma fé que se mantém de forma discreta.
O estudo também destaca o efeito da guerra civil na região, mencionando que o tecido social ficou fissurado, abrindo espaço para mudanças religiosas. Embora a conversão do islamismo ao cristianismo não seja explicitamente proibida, ela é amplamente vista como uma ameaça à ordem religiosa e social, com pressão tanto de autoridades quanto de setores da sociedade. Em termos práticos, muitos convertidos enfrentam discriminação nos sistemas jurídicos e sociais, que muitas vezes partem do pressuposto de que todos os cidadãos são muçulmanos.
Ao comparar com outras nações do Norte da África, o relatório ressalta que a Argélia se diferencia pela amplitude na aplicação de restrições. Na Tunísia, a Constituição assegura a liberdade de crença, embora o proselitismo continue a ser um tema sensível; no Marrocos, atividades cristãs são permitidas apenas de forma limitada, com monitoramento próximo de possíveis conversões. Ainda que a Argélia tenha ratificado acordos internacionais de proteção à liberdade religiosa, o cumprimento efetivo dessas obrigações é amplamente visto como insuficiente, e as reações de organismos internacionais têm sido, em grande parte, apenas simbólicas e não vinculativas.
O questionamento ganhou nova dimensão após uma visita papal histórica à Argélia, que destacou o legado cristão do país e incentivou o diálogo inter-religioso. No entanto, na prática, pouco mudou: para muitos fiéis, a vida religiosa continua longe da atenção do público, com um ambiente em que a vulnerabilidade jurídica se soma à pressão social. O relatório conclui que as dificuldades enfrentadas pelos fiéis não são incidentais, mas sim o resultado de um sistema jurídico e administrativo restritivo, que molda uma realidade de fé cada vez mais discreta.
E você, como enxerga o equilíbrio entre lei, ordem pública e liberdade religiosa? Compartilhe sua opinião nos comentários e participe da conversa sobre esse tema essencial para a cidade, os moradores e a região.

