Uma apreensão de drogas em Itaquaquecetuba, na região metropolitana de São Paulo, em 2023, abriu o caminho para uma investigação que aponta a existência de um núcleo político ligado ao Primeiro Comando da Capital, PCC, atuando para ampliar o poder do grupo. Ao todo, foram encontrados 8 kg de cocaína e 18 kg de maconha na casa onde ocorreu a abordagem, que também resultou na prisão de Edivaldo Raimundo dos Santos e na liberação de Fabiana Manzini, que, segundo a polícia, apenas alugava o imóvel.
Durante as investigações, surgiram ligações entre Fabiana e Anderson Manzini, conhecido como Gordo, preso há mais de 20 anos. O casal era apontado como ligado ao tráfico, e a apuração desvendou que Fabiana mantinha vínculos com o mundo do crime e com ex-integrantes da cúpula do PCC. Em outubro de 2023, a traficante foi presa em Praia Grande, no litoral, e a polícia apreendeu dois celulares que revelaram suas conexões com atividades criminosas e políticas.
Entre as novas informações, a polícia identificou Jo?o Gabriel de Mello Yamawaki, primo de Anderson Manzini, ligado à fintech 4TBANK. As conversas revelaram uma estratégia para eleger pessoas ligadas ao PCC nas eleições de 2024, com mensagens pedindo que Fabiana tratasse de articulações com o marido para apoiar candidaturas em cidades como Ubatuba, Mogi das Cruzes e Santo André. Em Santo André, Thiago Rocha, ex-vereador, foi citado como alguém que o PCC conhecia pela atuação política.
As mensagens também trouxeram à tona um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo a 4TBANK, fortalecendo a linha de investigação que resultou na Operação Decurio, em agosto de 2024, com a prisão de 13 pessoas, incluindo Jo?o Gabriel, e a apreensão de novos dispositivos. A Operação Contaminatio, deflagrada recentemente, ampliou o que já havia sido descoberto nas ações anteriores.
Segundo a Polícia Civil, o objetivo era criar um núcleo político do PCC capaz de explorar recursos públicos para a organização criminosa, além de cometer crimes contra a administração pública. Os documentos apontam que o grupo planejava fazer com que boletos de prefeituras fossem processados pela fintech 4TBANK, a mesma utilizada para lavar o dinheiro do PCC, e buscava vínculos com o Palácio dos Bandeirantes durante a gestão de João Doria.
Em relatório interno, Thiago Rocha aparece descrevendo reuniões de aproximação com nomes da política da época e citando pessoas ligadas à gestão pública. Entre os citados estão Pedro Seno, secretário de Inovação e Administração de Santo André, Pedro Oliveira, da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico, Samuel Oliveira, da Secretaria Estadual de Agricultura, Matheus Tonella, assessor do gabinete do prefeito de Campinas, e Gabriel Micelli, do Polo Tecnológico de Santos, hoje na Secretaria de Meio Ambiente de Santos. Em outra conversa, Thiago exibe uma foto ao lado de Miceli e comenta: “Santos no mapa, nosso mapa eleitoral”.
O Metrópoles procurou a Prefeitura de Santos, que afirmou não ser alvo da Contaminatio nem possuir relação com a fintech 4TBANK. Em resposta formal, a administração informou que o advogado Gabriel Miceli, assessor da Secretaria de Meio Ambiente, havia comunicado que seu nome foi envolvido na operação após participação em curso de formação política, e que ele prestará os esclarecimentos necessários assim que puder acessar os autos. A defesa de Thiago também negou qualquer relação com o PCC, ressaltando a atuação pública do ex-vereador e a colaboração com as investigações.
Além de Thiago, outros investigados foram alvo de mandados de prisão na Contaminatio, incluindo Joel Ferreira de Souza, Victor Augusto Veronez de Souza — pai e filho ligados ao tráfico de drogas — e Adair Meira, empresário apontado como suspeito de lavar recursos de fundações por meio da fintech em análise pelo PCC. O conjunto de informações obtido nas apurações traça um quadro claro: o PCC buscou ampliar sua influência política e econômica por meio de uma rede estruturada, com apoio em autoridades, empresários e políticas de várias cidades do ABC paulista e além.
Como fica o panorama para as próximas etapas da investigação, ainda sem conclusão, a polícia e o Ministério Público permanecem atentos a novos desdobramentos. A intenção é esclarecer a extensão do suposto núcleo político do PCC, a ligação com a fintech 4TBANK e o real alcance das articulações para as eleições de 2024, que já revelam uma complexa rede de interesses. Fica a dúvida sobre quais autoridades e quais recursos públicos teriam sido impactados, bem como a real dimensão do envolvimento de nomes políticos regionais no esquema.
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