Resumo: a paralisação da fintech Naskar Gestão de Ativos e o sumiço de seus três sócios geram entre 3 mil clientes a sensação de golpe financeiro. A Polícia Civil do DF investiga o caso, ainda sem confirmação de crime, enquanto casos antigos de pirâmide financeira no Brasil ganham nova atenção.
Caso Naskar em síntese: a empresa atuava há 13 anos captando recursos com a promessa de retorno de 2% ao mês, muito acima do que oferecem as instituições tradicionais. Exemplo usado pela fintech: com R$ 1 milhão investido, o retorno mensal seria de cerca de R$ 20 mil, com a empresa cuidando do patrimônio. O pagamento vinha ocorrendo até o início da última semana, quando não foi creditado.
Os clientes buscaram contato com os sócios, mas não houve resposta. Entre eles estão Marcelo Liranco Arantes, Rogério Vieira e José Maurício Volpato, o ex-jogador Maurício Jahu. Sem contato, investidores passaram a verificar o aplicativo, que deixou de funcionar em 6 de maio. A Naskar já havia mudado de endereço, saindo de Brasília e fixando-se recentemente em São Paulo, anúncio que não foi feito aos clientes, conforme reportagem do Metrópoles em 9 de maio.
Em 14 de maio, a empresa informou que uma entidade norte-americana chamada Azara Capital havia adquirido a fintech por R$ 1,2 bilhão, com promessa de ressarcir os clientes a partir de 18 de maio. A Azara apresenta sinais de alerta: o site não revela nomes de dirigentes, o endereço fica em Miami, o perfil no Instagram tem poucos meses de existência, entre outras incongruências. Até o momento, os investidores não receberam confirmação sobre quando ou se recuperarão seus recursos.
O outro lado. Em nota enviada na segunda-feira, 11 de maio, a Naskar informou que já enviou e-mails de circularização a toda a base de investidores. A próxima etapa é coletar documentos de cada um. Quem não recebeu o e-mail foi orientado a contatar [email protected] para entender a situação, sem previsão de restituição.
Entenda o impacto histórico das pirâmides no Brasil. A seguir, alguns casos emblemáticos nos últimos 20 anos, com valores estimados e desfechos conhecidos.
- GAS Consultoria (2021): R$ 38 bilhões — Prometia 10% ao mês em criptomoedas; a PF aponta que valores dos clientes não eram reaplicados; Glaidson Acácio dos Santos, conhecido como Faraó dos Bitcoins, permanece preso desde 2021 e a Justiça do Rio confirmou, em 2025, a falência da empresa, devendo mais de R$ 3,8 bilhões a milhares de clientes.
- Unick Forex (2019): R$ 28 bilhões — Prometia lucros de até 33% ao mês com comissões de 10% para quem indicava novos investidores; em 2019, a PF informou dívidas de cerca de R$ 12 bilhões aos clientes; 10 pessoas foram presas.
- Atlas Quantum (2019): R$ 7 bilhões — Ganhou notoriedade com celebridades em propagandas; deixou de pagar cerca de 200 mil pessoas; criador Rodrigo Marques dos Santos foi investigado e multado em R$ 113 milhões.
- Fazendas Reunidas Boi Gordo (anos 1990): R$ 6 bilhões — vendia cotas de fazendas de gado com promessas de retorno pelo peso de boi magro; o modelo dependia da entrada de novos investidores; prejuízo estimado em bilhões ao longo dos anos.
- Telexfree (2013): R$ 3 bilhões — marketing multinível ligado a serviços de internet; falência declarada em 2019; ativos no Brasil bloqueados e milionários nos EUA.
- Braiscompany (2023): R$ 1,5 bilhão — contas associadas aos sócios movimentaram criptoativos; donos foram presos em 2024; havia fotos com jogadores famosos para alavancar a imagem.
- Avestruz Master (1998): R$ 1 bilhão — vendia filhotes de avestruz para abate com promessa de retorno de 11% ao mês; desfecho em 2005, com condenação de três sócios em 2019.
- Outros casos relevantes: Trust Investing (2021), Rental Coins (2021), Grupo Bitcoin Banco (2019) e BBom (2013).
O caso Naskar ainda está sob estudo da PCDF, que registrou um pico de ocorrências após a divulgação do sumiço dos sócios. A apuração aponta para a possibilidade de que o episódio tenha ligações com fraudes financeiras históricas que marcaram o cenário nacional, reforçando a necessidade de cautela com promessas de retorno elevado e de checagem rigorosa de informações antes de investir.
