Como aposentados viraram alvo de um mercado bilionário de fraudes

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Enquanto o país acompanha operações contra traficantes, facções e grandes esquemas de corrupção, uma outra frente criminosa vem chamando cada vez mais a atenção das autoridades brasileiras: a disputa pelo dinheiro de aposentados e idosos.

Nos últimos meses, operações da Polícia Federal (PF) realizadas em diferentes regiões do país mostraram que criminosos passaram a mirar benefícios previdenciários, empréstimos consignados, aposentadorias e programas assistenciais como uma das fontes lucrativas de fraude do Brasil.

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Somente entre julho de 2025 e maio deste ano, a Polícia Federal deflagrou ao menos uma dezena de operações contra grupos suspeitos de criar pessoas fictícias, falsificar documentos, contratar empréstimos consignados, sacar benefícios de aposentados mortos e até utilizar idosos vulneráveis para obter recursos do INSS.

As investigações mostram que o problema deixou de ser pontual. Em muitos casos, trata-se de organizações criminosas estruturadas, com divisão de tarefas, falsificadores, intermediários, recrutadores de vítimas e operadores financeiros.

Cura

Uma das operações mais recentes ocorreu na última semana, em Roraima. A Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (Ficco) prendeu três suspeitos que se apresentavam como profissionais da saúde para convencer idosos a contratar empréstimos consignados.

Segundo os investigadores, os golpistas prometiam tratamentos terapêuticos e até curas para doenças. O objetivo era convencer as vítimas a assumir financiamentos cujos recursos acabavam desviados para o grupo criminoso.

Mas os golpes vão muito além dos consignados. Em maio, a Operação Persona Nula, da Polícia Federal no Pará, mostrou um esquema baseado na criação de pessoas inexistentes para obtenção fraudulenta de benefícios assistenciais destinados a idosos.

Segundo a investigação, os criminosos emitiam certidões de nascimento falsas, obtinham CPF e documentos de identidade em nome desses personagens fictícios e utilizavam toda a estrutura para receber pagamentos do Benefício de Prestação Continuada (BPC).

Foram identificados pelo menos 22 benefícios concedidos de forma fraudulenta. Poucos dias antes, em Florianópolis, outra investigação da PF terminou com a prisão em flagrante de duas pessoas que utilizaram documentos falsificados para sacar R$ 20 mil de um benefício assistencial destinado a uma pessoa idosa em situação de vulnerabilidade.

INSS

Em abril, a Operação Bórgias II apontou um esquema ainda mais sofisticado. Segundo a Polícia Federal, um grupo criminoso fraudava sistemas do INSS por meio da inserção de documentos falsos, alteração de dados cadastrais e mudança de locais de pagamento para permitir o recebimento indevido de benefícios.

As investigações identificaram saques realizados após a morte dos beneficiários, utilização de pessoas fictícias e fraudes envolvendo idosos vivos. O prejuízo estimado ultrapassou R$ 5,3 milhões.

O problema já havia aparecido em outras operações realizadas em 2025. Na Bahia, a Operação Persona identificou uma organização suspeita de aplicar fraudes em empréstimos consignados contra aposentados e pensionistas do INSS em diferentes estados.

Segundo a PF, os investigados captavam dados de vítimas, abriam contas bancárias e contratavam empréstimos em nome dos idosos sem autorização.

Fantasmas

No Pará, a Operação Fantasma encontrou indícios de fraude em 178 benefícios assistenciais destinados a idosos. O prejuízo estimado pelos investigadores ultrapassou R$ 16 milhões.

Também chamou atenção a Operação Mimetismo, que desarticulou um esquema de falsificação biométrica dentro da Caixa Econômica Federal.

Segundo a PF, o grupo utilizava pessoas mais jovens para se passar por correntistas idosos, inclusive beneficiários com mais de 100 anos de idade. Após o cadastro fraudulento da biometria facial e digital, eram realizados saques e movimentações financeiras indevidas.

Os investigadores estimaram prejuízos superiores a R$ 1 milhão apenas nas contas identificadas durante a apuração.
Outra investigação revelou um mecanismo ainda mais perverso.

Amparo forjado

Na Operação Amparo Forjado, no Maranhão, a PF identificou um grupo suspeito de aliciar idosos vulneráveis, incluindo pessoas em situação de rua, para que se passassem por beneficiários do INSS.

Os criminosos confeccionavam documentos falsos, criavam novas identidades e utilizavam essas pessoas para realizar saques de benefícios assistenciais. O prejuízo inicialmente identificado foi de R$ 1,45 milhão.

Para investigadores da área previdenciária, os aposentados se tornaram alvos estratégicos porque representam uma fonte previsível e permanente de recursos.

Todos os meses, milhões de brasileiros recebem benefícios previdenciários e assistenciais. Isso cria um enorme fluxo financeiro que pode ser explorado por fraudadores especializados.

Além disso, idosos costumam ser alvo preferencial de golpistas por causa da vulnerabilidade, da confiança em instituições financeiras e da dificuldade de identificar rapidamente fraudes digitais cada vez mais sofisticadas.

O avanço das investigações também coincide com o escândalo nacional revelado pelo Metrópoles envolvendo descontos indevidos em benefícios do INSS, que colocou sob suspeita associações que realizavam cobranças diretamente na folha de pagamento de aposentados sem autorização válida.

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