A difícil arte de ir embora da “casa dos pais”

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Esperando Godot não é apenas uma peça sobre a espera. É um espelho que mostra como a nossa tendência de adiamento pode prender a gente no mesmo lugar, mesmo depois de ter partido fisicamente. Partimos, mas o desejo de partir permanece — uma dinâmica que a psicanálise lê como uma relação ambígua entre o que já foi e o que ainda esperamos que venha.

A peça coloca Vladimir e Estragon à frente de um futuro que nunca chega: Godot, o Outro prometido, que traz sentido à espera e justificaria a nossa saída. O efeito dramático não vem do que acontece na cena, mas da repetição: dois atos que parecem igualar o tempo e a ação. A frase célebre de crítica destaca justamente essa repetição: nada muda, tudo se repete. A tensão está na espera que sustenta a paralisia, não na conquista real de um desfecho.

Aos pesadelos recorrentes, o autor associa a mesma lógica de espera: dois sonhos em que o sujeito fica preso à vontade de ser visto pelo Outro, à busca pela confirmação do desejo alheio. Em um, ele vaga pela casa dos pais durante uma festa, com o quarto vazio e a angústia de não partir; no outro, presencia o assalto sem agir, perde-se, e chora diante da inação da autoridade que poderia agir. Em ambos, o ato decisivo falta; a espera assume o lugar da decisão, e o desejo do Outro sustenta a própria inércia.

Freud e o caminho da saída não é a fuga física, mas a travessia interior. A casa do pai, no Freud, simboliza a proteção ilusória que nos impede de ver o desamparo estrutural. Sair dessa casa é reconhecer a nossa vulnerabilidade e, ainda assim, assumir a autoria de uma nova vida. A travessia não é mudar de endereço; é mudar a forma como nos relacionamos com o desejo e com o Outro, abrindo espaço para uma identidade que não dependa da garantia alheia.

Três saídas segundo Lacan, que ajudam a entender o que nos impede de partir: acting out (fazer cena sem mudar estruturas), passagem ao ato (desfazer-se de velhas garantias sem transformar o ambiente) e o ato propriamente dito (uma transformação profunda da própria posição diante do Outro). O próprio drama de Beckett e os pesadelos ilustram cada uma dessas saídas, mostrando que o impulso pode variar entre encenar, romper com a situação ou realmente cruzar um limiar sem retorno.

No último pesadelo em tom de conclusão, há uma chance: ao romper com a ideia de que só há segurança no colo do Outro, surge a possibilidade de criar vínculos mais autônomos — amorosos, fraternos, baseados no aprendizado da análise e na experiência do desejo que não depende da resposta perfeita. A ideia não é romantizar a desamparo, mas abrir espaço para uma relação consigo mesmo e com os outros que seja mais madura e menos dependente de garantias. E você, já sentiu que a espera ainda molda suas escolhas diárias? Compartilhe nos comentários sua experiência com a ideia de partir, hoje, com uma decisão que transforma a vida real.

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