Terra pode ganhar um anel como o de Saturno — mas ele não será natural

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Planos de data centers orbitais podem criar anel de Saturno no céu

Mais de um milhão de satélites e 50 mil espelhos podem alterar o brilho do céu e comprometer observações astronômicas, alertam especialistas

Planos para colocar no espaço mais de um milhão de satélites destinados a data centers, acompanhados de dezenas de milhares de espelhos orbitais, podem transformar de forma permanente a aparência do céu noturno, segundo informações divulgadas pela Space.com. O conceito envolve uma faixa luminosa criada por satélites alinhados na mesma órbita, que poderia ser visível de qualquer ponto da Terra por horas após o pôr do sol e antes do amanhecer.

Saturno
Terra pode ficar parecida com Saturno – Imagem: Sebastian Voltmer/Spaceweather

Crédito: Sebastian Voltmer/Spaceweather

A ideia é formar um anel por meio de satélites operando na mesma órbita, criando uma faixa luminosa que poderia superar o brilho de estrelas e até da Lua cheia. O professor Hugh Lewis, da Universidade de Birmingham (Reino Unido), afirma que, para acomodar o grande volume de constelações propostas, seria necessário posicioná-las em uma órbita específica ao longo da fronteira entre o dia e a noite. “O impacto sobre o céu noturno seria absolutamente catastrófico”, disse ele.

Corrida por data centers espaciais amplia preocupações

Segundo informações divulgadas pela Space.com, a corrida pela criação de data centers orbitais ganhou força no último ano, com várias empresas buscando autorização da FCC para lançar grandes constelações de satélites. Entre as interessadas estão SpaceX, Starcloud, Cowboy Space, Orbital e Blue Origin, com somatório de projetos que pode exceder um milhão de satélites.

A China também ingressou na disputa e planeja desenvolver sua própria rede de data centers orbitais nos próximos cinco anos. Além disso, a empresa Reflect Orbital pretende lançar 50 mil espelhos espaciais para refletir a luz solar para usinas de energia solar na Terra durante a noite. Em 10 de julho, a FCC autorizou a operação do primeiro espelho orbital da empresa, o demonstrador Erendil-1, com lançamento previsto até o fim deste ano.

Satélites precisam permanecer na mesma órbita

Lewis explica que tanto os data centers orbitais quanto os espelhos dependem de iluminação solar contínua para funcionar, exigindo uma órbita que acompanhe a linha do terminador — a fronteira entre áreas iluminadas e escuras da Terra — passando sobre os polos Norte e Sul. “Não é como a megaconstelação Starlink, distribuída ao redor do planeta”, ressaltou.

Simulações indicam céu dominado por satélites

A astrônoma Samantha Lawler, da Universidade de Regina (Canadá), apoiou a avaliação de que essas constelações podem reduzir visibilidade de estrelas e até tornar parte do céu mais brilhante que o observado hoje. As simulações mostram que o anel poderia cruzar o céu duas vezes por dia, com efeito maior no inverno. O estudo reforça que, à medida que a Terra gira sob essa órbita, o anel muda de posição, gerando padrões repetitivos ao longo das noites.

Efeitos podem comprometer observações astronômicas

Lawler ressalta que as simulações utilizam informações públicas e ainda não passaram pelo processo de revisão por pares. Mesmo assim, o brilho refletido poderia permanecer até duas horas após o satélite sumir no horizonte, reduzindo a eficácia de telescópios financiados pelo contribuinte. Alguns projetos, como o Project Sunrise da Blue Origin, apresentariam inclinações que formariam um desenho em X sobre o anel principal; em áreas mais próximas ao equador, ver-se-ia o X, já em regiões mais ao norte, duas faixas distintas.

O brilho total do anel dependerá do número de satélites, mas cada espelho da Reflect Orbital deverá ter brilho semelhante ao de Vênus, segundo especialistas. Estudos anteriores do Observatório Europeu do Sul indicaram que 50 mil espelhos poderiam elevar o brilho noturno em até 300%, prejudicando observações de telescópios altamente precisos. O astrônomo John Barentine, ao Space.com, aponta que a humanidade já modificou o cosmos de forma relevante, e projetos como o da Reflect Orbital poderiam transformar esses anéis em faixas reflexivas permanentes que interferem nas janelas de observação crepuscular da astronomia global.

Participem da discussão nos comentários sobre os impactos de satélites e espelhos orbitais na ciência e na observação do céu noturno.

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